25 Dezembro 2011

Minha Promessa

A mais inspiradora passagem sobre o Natal que li neste mês foi de meu amigo Sensei Jiyo Agacki. Para ser lida vagarosamente, saboreando cada palavra e imagem, como um poema, pois é isso o que é. E com ela desejo a todos Boas Festas!



Minha Promessa

Sempre refleti sobre o nascimento e a morte. Aqueles mistérios a partir dos quais se desenvolvem
inteiros movimentos religiosos... para explicar, para tentar entender.

Ainda penso sobre tais eventos que nos trazem para a vida, que põem um fim nela. Observei-os se aproximarem muitas vezes desde que me tornei consciente deles. O nascimento é sempre visto como uma alegria… a morte como um pesar.

Mas parece a mim, à medida que ando nessas misteriosas sombras, segurando as mãos desta figura indistinta que sempre parece estar lá: para ver através... parece-me que de certa forma entendemos as coisas um pouco erroneamente.

Os cristãos captaram um aspecto da morte quando disseram que ela é uma ocasião de ALEGRIA, afinal de contas, os mortos vão ao encontro dos braços acolhedores de Jesus, e ele tomará conta deles até chegarmos lá. Claro, SOMENTE se você se lembrar de viver de uma maneira CRISTÃ. Isso confere uma amortecida na ideia, no entanto.

Ainda assim, há tanto para se entristecer. Há uma loucura do partir, o pensamento de um amor que nunca voltará, que nos envolve... que nos consome. Alguns são devorados, submergem nisso, e nunca retornam de sua tristeza. Mesma se a morte chega rapidamente, cedo demais, isso não deveria ser assim. Que possamos nos entristecer com a retirada, carregar a tristeza de nosso amor conosco para sempre... isso é importante. Isso é AMOR, e o amor somente morre quando o matamos. Soa difícil para mim dizer isso, mas é VERDADE. Não deveria fazer isso. Mas possamos também sorrir, até rir, sabendo aquilo que eles nos deram, e que, verdadeiramente, suas vidas significaram algo, nos tocaram de uma forma que nos aqueceu por tê-los conhecido.

E que a alegria sempre esteja presente no nascimento. A alegria na novidade dele, em sua esperança. Mas que a tristeza sempre esteja presente também. Uma tristeza no reconhecimento desta pequena criança que terá dores e pesares que você não será capaz de fazer nada a respeito, por mais que tente. Que a cada novo nascimento neste mundo possamos fazer uma promessa solene, uma promessa que sua chegada nesta vida significará algo, que estaremos lá para ajudá-los o melhor que pudermos.

Sempre digo que todos os filhos são meus filhos.
Digo isso sinceramente.
E todas as mortes são minha morte.
Digo isso sinceramente, também.
Cada momento: eu choro, e sorrio, apenas por eles.

18 Dezembro 2011

O Buddhismo é elitista?

Pergunta: Por que o Budismo não é tão divulgado na periferia? Aqui temos muitas igrejas evangélicas de garagem que massificam a mentalidade da população, e como morador sinto falta de uma melhor colocação das sanghas. Por esta região temos que nos deslocar muito e isso nos desanima a procurar mais informações! As igrejas católicas e evangélicas possuem um diálogo de massificação de idéias e horizontes, enquanto que vemos que as sanghas se estabelecem principalmente em bairros mais nobres. A "impressão" que tenho é que as comunidades budistas são realmente para pessoas com uma situação finceira mais abastada, talvez eu esteja errado mas nunca vi um templo ou sala sendo estabelecida na periferia.

Resposta: Esta é uma pergunta bastante frequente, e resulta em geral de uma má compreensão de como o buddhismo se estrutura e como é divulgado. Ao contrário de algumas religiões e movimentos espiritualistas, o buddhismo não é proselitista, e isso significa que templos e organizações buddhistas não se dedicam a coletar dinheiro para sustentar pastores/padres/sacerdotes a fim de que eles possam ir pregar nas várias regiões. A expansão do Buddhismo é inversa. Ao invés de pregadores serem formados e sustentados por uma organização a fim de abrir novas frentes de evangelização (que é o método evangelista), os lugares buddhistas surgem apenas quando pessoas da própria região se organizam e aí então requisitam que alguém venha a ensinar.

É importante, então, entender que os vários grupos e centros que existem por todo o Brasil e o mundo, não são frutos de trabalho missionário, de um órgão central que determina quais regiões precisam de buddhismo e aí mandam seus agentes até lá. A maioria dos grupos buddhistas brasileiros aliás, mal e mal se sustenta e não teria condições de sair criando igrejas/grupos, etc., por todas as regiões. De fora, claro, parece que o buddhismo é elitista pois pode não aparecer nas periferias (bem como em outras regiões, cidades do interior, cidades distantes das metrópolis, etc), mas isso parece assim apenas quando se julga o buddhismo a partir de critérios evangelistas com suas igrejas centralizadoras e missionárias. O buddhismo se encontra onde está agora não porque os centros escolhem ficar nos bairros ricos e abastados, mas porque pessoas interessadas em criar algum grupo ou centro são moradores de tais ou quais lugares. Então é um processo inverso do que parece.

15 Dezembro 2011

O que é Sucesso?

Aos 02 anos sucesso é: conseguir andar
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Aos 04 anos . sucesso é: não fazer xixi nas calças
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Aos 12 anos . sucesso é: ter amigos
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Aos 18 anos . sucesso é: ter carteira de motorista.
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Aos 20 anos. Sucesso é: fazer sexo
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Aos 35 anos. Sucesso é: dinheiro
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Aos 50 anos. Sucesso é: dinheiro
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Aos 60 anos. Sucesso é: fazer sexo
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Aos 70 anos. Sucesso é: ter carteira de motorista.
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Aos 75 anos. Sucesso é: ter amigos
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Aos 80 anos. Sucesso é: não fazer xixi nas calças
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Aos 90 anos. Sucesso é: conseguir andar.
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ASSIM É A VIDA...
...NÃO LEVAMOS NADA DELA,
PARA QUE PERDER TEMPO COM MALDADE, FALSIDADE, FALTA  DE AMOR, DESRESPEITO, MAU HUMOR, E TANTAS BOBAGENS SEM SENTIDO?
TODOS TEREMOS O MESMO DESTINO, INDEPENDENTEMENTE DA CONDIÇÃO FINANCEIRA, DA CLASSE SOCIAL. PORTANTO,
AME,
BRINQUE, PERDOE E APROVEITE A VIDA...
SEJA FELIZ !!! 
 
autor desconhecido

08 Dezembro 2011

A dura vida dos ateus

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico
A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?


por Eliane Brum

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)

fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html

04 Dezembro 2011

Trazendo o Dhamma de Volta para Casa

~ uma versão condensada da palestra de encerramento de Bhikkhu Bodhi no retiro de Dharma do Monastério Bodhi

O retiro está chegando ao final e logo teremos de ir para casa. Mas quando voltarem para casa, não pensem que vocês deixaram a prática do Dhamma para trás e não serão capazes de retomá-la até o ano que vem. Não dividam a sua vida em dois compartimentos: prática do Dhamma, algo que vocês fazem no monastério; e vida mundana, aquilo que vocês encaram quando abrem a porta da frente de suas casas. Vocês têm de reunir sua prática do Dhamma e sua vida. É quando sua vida se torna prática encarnada e sua prática se exprime em sua vida diária que vocês verdadeiramente entraram no caminho da prática do Dhamma em sentido próprio.

Em termos filosóficos, o Buddhismo faz distinção entre Nibbāna (skr. Nirvāṇa) e Saṁsāra. Nós pensamos o Nibbāna como o reino transcendente da liberdade e da paz definitiva, e o Saṁsāra como o reino da finitude e do sofrimento, como a escravidão da vida mundana. Com base neste entendimento, consideramos um retiro de Dhamma como uma grande oportunidade de deixar para trás nossos afazeres mundanos e dar alguns passos em direção ao Nibbāna, alguns passos mais perto da real pureza e sabedoria. Mas, se vocês entenderem essa distinção em termos absolutos, então, quando deixarem o mosteiro e voltarem para casa, poderão se sentir miseráveis por não querer enfrentar os problemas, pressões e obrigações da vida familiar.

Mas há outro modo de olhar a situação. No Buddhismo usamos frequentemente a imagem de uma flor de lótus crescendo na lama para ilustrar o processo de crescimento espiritual. A flor de lótus é o símbolo da beleza perfeita e pureza e, no entanto, ela cresce na lama no fundo do lago. Se não houvesse lama, a flor de lótus não poderia crescer; a flor de lótus não pode crescer num jardim bem preparado em terras secas. Somente na lama, na terra molhada do lago, é que a flor de lótus pode fazer crescer as suas raízes na lama e crescer atravessando a água do lago, centímetro a centímetro, até que atinja a superfície do lago. Então a flor se abre mostrando a sua beleza e fragrância para todos.

Essa imagem da flor de lótus crescendo na lama, subindo cada vez mais alto no lago até alcançar a superfície, simboliza a vida de um buddhista vivendo no mundo. A flor de lótus cresce da semente de lótus. A semente para o seu crescimento espiritual é a fé forte na Tríplice Jóia: o Buddha, o Dharma e a Sangha. Como uma semente, a fé tem o potencial de se transformar em uma linda flor de lótus, a flor da mente iluminada. E o que alimenta a semente é a sua vida dentro do mundo, suas experiências cotidianas. Com a orientação do Dhamma, você pode aprender as habilidades necessárias para integrar o seu dia a dia com o caminho da iluminação e da libertação. Ao fazer isso você vai dar verdadeiro sentido para a sua vida. Significados entram em nossa vida quando buscamos um objetivo que é realmente bom. O Buddha fala em dois tipos de bem – o próprio bem da pessoa e o bem dos outros – e ele diz que nós aproveitamos a mais significativa vida quando nós dedicamos nossos esforços para realizar estas duas partes do bem. Então, em sua vida diária, você deve prestar atenção em ambos para atingir o seu próprio bem e para promover o bem para os outros.

O Buddha fala de dois tipos de bem – o bem próprio e o bem de outros – e ele diz que nós aproveitamos a mais significativa vida quando dedicamos nossos esforços para preencher este duplo bem. Então, em nossa vida diária, vocês devem dar atenção para ambos, alcançar seu próprio bem e promover o bem de outros.

Vocês promovem o seu próprio bem, comprometendo-se com a prática sincera do Dhamma. Há três importantes esferas na prática buddhista: a devoção, o estudo e a meditação. Devoção é o cultivo do lado emocional da nossa vida. Conduz as emoções por canais espiritualmente benéficos, inspirando a vontade, despertando as nossas aspirações, estabelecendo as nossas determinações. Como a gasolina está para os carros, a devoção fornece a energia que faz do estudo e da meditação canais para o progresso do Dhamma. O estudo é necessário para aguçar o nosso entendimento dos ensinamentos de Buddha, desenvolver a sabedoria; mas o estudo sem a prática não conduzirá à realização. Assim, para transformarmos o que aprendemos, através do estudo, numa verdadeira realização, temos de praticar meditação, bhāvanā. A meditação purifica a mente e permite-nos ver com um insight direto a verdade do ensinamento, a verdade de todos os fenômenos.

Enquanto você vive a sua vida familiar, respondendo às suas responsabilidades familiares, você deve dedicar certos períodos de tempo durante o dia à sua prática do Dhamma: para as devoções, o estudo sério dos ensinamentos do Buddha e o cultivo mental. Você deve também manter um contato regular com um monastério. Tudo isto soa a conversa de vendedor, mas não é assim. É para o seu próprio bem ter contatos regulares com pessoas sábias e conselheiros compassivos, que podem guiá-lo, explicar os aspectos difíceis e ajudá-lo a cultivar o caminho.

Até agora eu falei sobre realizar seu próprio bem, mas vocês também devem dar atenção ao bem dos demais. Uma maneira de fazer isso é a prática da generosidade. Aqui na América nós vivemos em uma sociedade muito abastada. Devemos considerar os bilhões de pessoas neste mundo vivendo à beira da inanição, à beira da pobreza, à beira da miséria e desespero. Devemos ajudar a aliviar sua pobreza em qualquer medida que possamos e contribuir de forma concreta para resgatá-los da miséria.

Vocês também podem contribuir para o bem dos outros ajudando o próprio monastério. Os monges querem usar seu tempo para estudar o Dhamma numa maior profundidade de modo que possam partilhar o Dhamma com outros, podem partilhá-lo com vocês, e assim vocês também colherão os frutos do caminho. Mas para ter tempo e oportunidade para estudar o Dhamma em profundidade, realmente precisamos de ajuda - ajuda física e apoio moral.

Eu acho que o Monastério Bodhi tem o potencial de fazer uma contribuição poderosa e efetiva para a disseminação do Buddhismo na América do Norte. Mas, para que este monastério tenha sucesso, nós vamos precisar de uma cooperação estreita e harmoniosa entre os monásticos e a comunidade leiga afiliada. Então, vamos todos juntar as mãos para fazer do Monastério Bodhi um verdadeiro local Bodhi (de Despertar) para estudar, praticar e compreender os ensinamentos do Buddha.

Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda

02 Dezembro 2011

Nossa Mente é Nossa Melhor Amiga


~ um excerto de uma palestra do Bhikkhu Bodhi (August 2, 2002)

Em nossas vidas distinguimos frequentemente as pessoas como os nossos inimigos e amigos. Nós consideramos como inimigos as pessoas que desejam nos prejudicar, fazer algo ruim para nós ou nossos familiares. E consideramos como amigos as pessoas que desejam nos beneficiar, prover para o nosso bem-estar e o bem-estar dos que estão perto de nós. Agora vamos considerar que tipo de dano pode nos fazer um inimigo.

Um inimigo pode nos difamar espalhando rumores falsos sobre nós, mas se sabemos que não temos culpa em relação ao que ele nos acusa, não precisamos nos preocupar. Um inimigo pode até nos machucar fisicamente; no pior cenário, ele pode nos matar. Mas mesmo que ele faça isso, não precisamos ficar excessivamente pessimistas. Porque se tivermos uma mente boa, forte, bem-desenvolvida e virtuosa, mesmo que o corpo morra ela continuará em direção a algum estado existencial feliz no futuro. Mas se nossa mente afasta-se do caminho do Dhamma, se nos rendemos aos impulsos do egoísmo, da ganância e do ódio, então sofreremos muito mais numa vida depois da outra do que sofreríamos quando o inimigo tirou nossa vida. Uma vez que o inimigo não consegue causar danos a nossa mente, podemos considerar que estamos seguros.

Nós consideramos como amigos ou como benfeitores, aqueles que nos beneficiam. De todas aquelas pessoas que nos beneficiam em nossas vidas, as mais importantes, sob o ponto de vista mundano, são os nossos pais. Além disso, mesmo se os nossos pais cuidarem de todas as nossas necessidades materiais e sociais, eles não estariam nos beneficiando tanto, quanto se nos dessem instrução moral, se nos dessem uma orientação no caminho certo da vida. Quando eles nos dão sábia instrução na própria conduta de nossa vida, se aceitamos ou não depende de nós mesmos, e isso significa que depende das nossas próprias mentes. É por isso que o Buddha fez da mente o ponto focal de todo o seu ensinamento. A mente é a força central em nossas vidas, e toda a qualidade de nossas vidas é apenas um reflexo da qualidade das nossas próprias mentes.

O Buddha ensina o modo para desenvolver a mente, para elevar a mente. O seu ensinamento não é dirigido para aqueles que são já sábios iluminados, mas para as pessoas comuns vivendo vidas muito comuns. O que ele ensina é como transformar a mente impura, a mente perturbada por aflições, desejos, tristeza, dor e sofrimento, em uma mente iluminada, uma mente liberta, uma mente que é radiante com sabedoria, boa vontade e compaixão, em uma mente que é pacífica e satisfeita sob quaisquer circunstâncias. Isso é ilustrado pela famosa analogia da flor de lótus. O lótus começa a crescer no fundo de um lago lamacento, mas ergue-se da água lamacenta até que emerge do lago, abre suas pétalas e revela a sua beleza sublime.

Ao praticar o Dhamma, começamos com a mente comum, que é como uma semente de lótus na lama, a mente suja por desejos e ilusões. Ao seguir passo a passo as instruções do Buddha nós elevamos a mente acima da lama do mundo, abrimos suas pétalas de qualidades virtuosas, até que ela se abra completamente e mostre sua radiante beleza.

 Traduzido pelo Grupo de Tradução do Centro Nalanda