25 Outubro 2011

Pali, Wall Street, Kumarajiva e Dogen

Ótimos materiais foram publicados esta semana em alguns sites:
  1. Uma Palavra Pali por Dia
  2. no site da Comunidade Nalanda.
  3. Reflexões Buddhistas sobre o movimento Occupy Wall Street pelo prof. David Loy, no site da Comunidade Nalanda
  4. A Oficina de Traduções Kumarajiva pelo prof. Ricardo Mário Gonçalves no site do Nambei Honganji de Apucarana
  5. O Dogen da Maturidade, palestra em áudio pelo prof. Joaquim Monteiro no site Buddhologia Crítica
Tenham uma boa leitura!
     
     

23 Outubro 2011

KARUNA

... compaixão, ausência de dano, vontade de suportar a dor dos outros

Karunā deve ser praticada com sabedoria (panna). É um pensamento de paz e de ausência de vontade em causar dano, com a intenção de diminuir a dor de outros seres que não são tão afortunados quando comparados conosco.

No apogeu desta prática, deveremos mesmo ir ao ponto de sacrificar a própria vida de modo a aliviar o sofrimento dos outros. Tem a característica de uma mãe amorosa, cujos pensamentos, palavras e ações sempre tendem a aliviar o sofrimento do seu filho doente.

O objetivo de Karuna é ajudar a eliminar o elemento da crueldade. O cultivo de Karuna não se limita às palavras – a ação também conta. A compaixão é o fator motivador da tomada de votos de Bodhisatta.

Devemos ser capazes de identificar os sentimentos de perturbação emocional causados pelo sofrimento dos outros enquanto pena e desgosto e não karuna. Karuna, como as outras três virtudes nos Brahma Viharas, é uma qualidade mental positiva.

~ uma tradução de Isabel H.


22 Outubro 2011

LOBHA

...ganância, cobiça, um sinônimo de tanha (ânsia, desejo) e raga (paixão)

Sendo a causa raiz do mal, ela assume muitas faces. Acumulação - segurar, sem deixar ir, obsessão com ganho material, avareza e ânsia - desejo de possuir o que os outros têm, agarrar-se aos objetos desejáveis dos sentidos, etc.

De uma forma sutil, poupança/economia - uma espécie de relutância em consumir coisas - parece ter o elemento de lobha na sua raiz. Enquanto a mais forte transforma-se em agarrar o objeto mental como desejo do sentido. Ela tem a função de “grudar” e a manifestação de lobha é a não desistência. A causa imediata é ver o prazer nas coisas que levam à escravidão.

Lobha pode se transformar facilmente em dosa quando não se obtém o objeto desejado e, assim, criar todo tipo de akusala kamma possível (ações não saudáveis).

É preciso aprender a ser contente (santosa) e deixar passar o prazer sensual (kama). É preciso estar atento ao apego a regras e rituais que impedem o progresso espiritual.

~uma tradução de Malu V.



21 Outubro 2011

uma passagem pelo Sul



Terminando mais uma etapa da maratona de viagens nos últimos meses. Desde final de agosto pudemos visitar Curitiba, Brasília, Aracaju, Londrina, Apucarana, São Paulo, Chapecó, Camaquã e Porto Alegre, além, é claro, de passar por Belo Horizonte. Tivemos oportunidade de encontrar novos e antigos praticantes, sentar com eles, visitar lugares, conversar sobre o Dhamma e a vida contemplativa, e foi maravilhoso ver a animação e dedicação de todos os organizadores, cuja ajuda foi inestimável para que tudo isso acontecesse. Ver a dedicação das equipes de apoio, voluntários, dayakas, em todas estas cidades é altamente inspirador e nos faz dedicar ainda mais para o benefício de todos os seres trazendo uma versão atualizada, pé no chão e relevante dos ensinamentos originais do Buddha em língua portuguesa. Esta inspiração foi ainda potencializada pelo encontro com praticantes de várias outras sanghas nestas cidades, incluindo professores em outras linhagens buddhistas. A todos estes nosso agradecimento pelo acolhida e boas conversas!

Abaixo alguns depoimentos de nosso evento recente em Porto Alegre / Camaquã:

A experiência foi muito rica, interessante e valiosa para alguém como eu que vem buscando um crescimento pessoal e espiritual... Obrigado a todos pela oportunidade e por partilhar estes bons momentos.

Um fato que tem me marcado nestes anos é o gosto pela liberdade e uma procura dentro de mim mesmo pela verdade...a experiência que tive aqui vem de encontro a tudo isso. Por tudo que vivenciei aqui, sou muito grato.

Inicialmente foi muito difícil, de compreender, posicionar o corpo, respirar, pensar...(mas olhei para este lugar lindo silencioso e agradeci por estar aqui...a palestra da noite foi a peça que faltava. Tive a sensação de não ter mais dor no corpo e cada palavra foi entrando, entrando e de novo agradeci.

Foi um retiro de um bom processo - realmente já tentei fazer outros grupos de meditação, mas não consegui - este realmente foi bem direcionado, foi colocado de uma maneira bem clara e objetiva, me tirou muitas dúvidas.

Começo difícil, quase desisti. Mas depois das palestras da noite me restabeleci, e senti que as dores do corpo eram as dores da alma. Agradeço por este tempo que estive aqui. Volto para casa diferente, mais forte e com vontade de continuar.

Foi meu primeiro retiro para meditação e respiração e adorei muito. Gostei de saber e entender todos os 16 passos necessários... Entendi o longo caminho de concentração e descoberta que tenho pela frente, rumo à libertação.


O tema dos controles foi como um soco no estômago, e eu agradeço imensamente por teres me dado gentilmente esse soco, pois tive que sair da zona de conforto, na qual o controle é considerado algo bom, virtude de pessoas batalhadoras, que sabem o que querem, para enxergar o controle como ele realmente é e como ele aprisiona em mais ilusões.

Nestes dias recebi as instruções para sair do caos em direção ao cosmos. Já tinha feito um retiro com o professor em BH...conclui o retiro com uma verdadeira sensação de libertação de tudo aquilo que tentei agarrar e controlar.

Poderia passar horas escrevendo sobre esses dias, pois foi um cair de16 fichas. Passei a ter um maior entendimento sobre quais os benefícios da meditação, como temos vários estados mentais e o poder de observá-los. Isso é maravilhoso!

20 Outubro 2011

DUKKHA

...du (difícil) + kha (de suportar) = sofrimento, doente, incapaz de satisfazer, um estado de mal-estar no sentido de desconforto, frustração e desarmonia com o ambiente.

Nascimento (jati) é sofrimento, assim como o envelhecimento e a decadência (jara), doença (vyadhi), morte (marana), a separação dos seres amados e a não obtenção do que se quer. Resumindo, os cinco agregados (khandas) do apego são sofrimento.

A influência dos sentidos é tão tentadora que nós acreditamos no "Eu". E quanto mais nos apegamos a isso, mas sofrimento haverá. O apego aos objetos dos sentidos e o desconhecimento, ou ignorância (avijja) de sua impermanência (anicca), encobre a causa do sofrimento, que é manifestado como desejo (tanha).

Os três tipos de dukkha são:

1. sofrimento do corpo e da mente no sentido comum, como dores, desconforto, etc.

2. sofrimento dos agregados devido ao surgimento e ao desaparecimento de uma fase momentânea da existência.

3. Dukkha originário das mudanças ou transitoriedade.

~uma tradução de Eduardo C

19 Outubro 2011

MITTA


... amigo, companheiro

Kalyana Mitta - Amigos e amizade espirituais.

O propósito da amizade é crescer mutuamente, aprimorar-se espiritualmente pela fé (saddha), generosidade (caga), virtude (sila), conhecimento e sabedoria (panna).

É a precursora da bondade na vida, assim como a felicidade, riqueza, oportunidade, etc. É a condição de suporte para o crescimento de toda bondade.

Um verdadeiro amigo é um amigo que presta ajuda quando é preciso, que divide com você o bem-estar e mesmo os seus problemas, que dá bons conselhos e que tem simpatia.

Um inimigo disfarçado de amigo é aquele que se aproxima para obter vantagens (o oportunista), aquele que fala demais (o falante), aquele que faz muitos elogios (o lisonjeador) e aquele que traz prejuízos (o aproveitador).

Um bom amigo é aquele que:
  1. dá o que é difícil de se dar (dana),
  2. faz o que é difícil de se fazer,
  3. ouve o que é difícil de se ouvir ou suportar,
  4. confessa (ações) seus segredos a você,
  5. guarda outros segredos,
  6. na necessidade não o abandona,
  7. não o despreza quando você está arruinado. 
~ uma tradução de Marilis T.

18 Outubro 2011

KAMMA

…ações realizadas com intenção ou motivo consciente

A lei do Kamma- a lei da causa e efeito, ação e apropriado resultado da ação.

Todas as nossas ações se encaixam em três classificações, nomeadamente: pensamento (ação mental), discurso (ação verbal) e corpo (ação física). Para que estas ações se tornem kamma, elas têm de estar associadas a cetana (vontade) ou intenção. Assim, kamma pode ser kusala (sadio) ou akusala (não sadio).

Kamma não é uma doutrina de pré-determinação. O passado influencia o presente, mas não o domina. O passado e o presente influenciam o futuro.

O resultado de Kamma é chamado Vipaka (consequência) ou Phala (frutificação). E isto leva a um bem conhecido e fundamental ensinamento de Buddha - a doutrina do Renascimento.

Kamma é a causa maior de todas as desigualdades do mundo, apesar de nem tudo ser devido a essas ações passadas. A explicação mais simples de como Kamma funciona é: o bem gera o bem; o mal gera o mal; o bem e o mal dão origem ao bem e ao mal; algo nem bom nem mau origina algo nem bom nem mau.

~ uma tradução de Ines D.

16 Outubro 2011

PAÑCA-SILA

... Cinco Preceitos - formam o código de conduta básico buddhista com o objetivo de vigiar as portas dos sentidos.

Eu me comprometo a cumprir o preceito de me abster:

1. de destruir seres vivos (panatipata). Este preceito ajuda a controlar a paixão pelo ódio e raiva em nós, com o cultivo da boa vontade e compaixão.

2. de tomar o que não é dado (adinnadana). Evitando cometer fraude, roubar, burlar ou mesmo tomar mais do que é dado, exercemos autocontrole sobre o desejo de possuir coisas pertencentes aos outros. Por outras palavras, estaremos praticando a generosidade, a sinceridade e a desenvolver a confiança.

3. de ter uma vida sexual imprópria (kamesu-micchacara). Refreando a nossa luxúria excessiva tal como o adultério, mostramos respeito pela segurança e integridade dos outros e praticamos o contentamento.

4. de praticar o discurso falso (musavada). Mentir ou enganar (dizendo menos do que se deve) são os aspectos negativos da honestidade. Devemos evitar usar a batota, exagerar e caluniar para ganhar riqueza, fama e poder.

5. de tomar drogas e álcool (sura). Deste modo não escapamos à realidade. Devemos estar conscientes em cada instante e ser autocontrolados.

~ uma tradução de Pedro C.

~ uma palavra pali por dia ~

15 Outubro 2011

ADHITTHANA

... decisão, resolução, aspiração, autodeterminação, intenção

Diferente de um voto, tal determinação é baseada em sabedoria, compaixão e abnegação e não numa promessa que devemos pagar mais tarde. É também a principal virtude necessária para trilhar o nosso caminho espiritual.

Através de uma forte determinação aperfeiçoamos os paramis.

Os buddhistas gostam de afirmar sua aspiração diante da árvore Bodhi. Como fez o Bodhisatta Gotama antes que Ele alcançasse o Seu Despertar, afirmamos o nosso adhitthana recitando:

“Pelo poder dos méritos que acumulei, que eu possa...”

Sempre que fazemos algo bom, como dana, devemos afirmar uma aspiração:

“Possa este meu dana ser uma condição para que eu aprenda, pratique e realize a Verdade até que eu alcance nibbana”.

~ uma tradução de Jorge F.

~ uma palavra pali por dia ~

14 Outubro 2011

EHIPASSIKO


...“venham e vejam”

Esta é uma das virtudes do Buddha-Dhamma. O Buddha convida-nos a vir e a ver, a examinar, a verificar, a testar e a experimentar os resultados dos Seus ensinamentos.

A aprendizagem do Buddha-Dhamma não exige uma fé cega. Não há mandamentos ou regras para penalizar os seguidores que não queiram acreditar nele.

O único caminho para compreender a Verdade é adquirir conhecimento e praticar por si mesmo, de livre vontade. Forçar alguém a aceitar certos ensinamentos para os quais ela não está preparada para os receber, não beneficiará essa pessoa no seu progresso espiritual.

O Buddha não teve medo que os seus ensinamentos fossem testados, a sua realização só vem da prática dos seus ensinamentos. O Buddha-Dhamma é também svakkhato (‘bem ensinado’), sanditthiko (a ser realizado por si mesmo), akaliko (que tem resultado imediato), opanayiko (possível de ser penetrado), paccattam veditabbo viññuhiti (a ser alcançado pelo sábio, por ele mesmo).

~ Uma tradução de Fatima C.

~ uma palavra pali por dia ~

13 Outubro 2011

MUDITA

... alegria simpatética, alegria altruísta, alegria apreciativa
- é a atitude congratulatória de uma pessoa

Sua característica principal é a feliz aquiescência na prosperidade e sucesso de outrem. É uma das quatro Moradas Sublimes da Conduta (Brahma Viharas). As outras três são Metta, Karuna e Upekkha.

Por alegrar-se com as habilidosas ações e méritos de outros, tende-se a erradicar a própria inveja (issa) que levaria a atitudes não saudáveis por meio de atos, palavras e pensamentos. A prática de mudita exige muito esforço pessoal e grande força de vontade.

O desenvolvimento de mudita requer avaliação sistemática, Compreensão Correta e moderação. Portanto, deve-se estar sempre vigilante quanto aos inimigos próximos, que são o riso, a festividade, a excitação e a euforia, e quanto aos inimigos distantes, o ciúme e a inveja.

Mudita é como a alegria de uma mãe pelo sucesso e vitalidade de seus filhos. Um buddhista praticando mudita alegremente dirá “Sadhu! Sadhu! Sadhu!”, que significa bem feito ou excelente, para congratular os méritos dos outros.

~ uma tradução de Paulo R.

~ Uma palavra pali por dia ~

11 Outubro 2011

METTA

...bondade amorosa, amor divino, boa vontade ativa

É também um sentimento caloroso e amigável de boa vontade e preocupação pelo bem estar e felicidade de si próprio e dos outros. É uma prática de qualidades mentais positivas para superar a raiva (dosa), má vontade, ódio e aversão.

Assim como uma mãe protegerá sua criança, mesmo pondo em risco sua vida, da mesma forma se deve cultivar o amor ilimitado por todos os seres vivos.

Metta deve ser irradiado em igual medida para si próprio e para amigos, inimigos e pessoas neutras, independentemente de sua força e tamanho, e quer eles sejam vistos ou não vistos e quer morem perto ou longe.

A culminância desse metta é a identificação de si mesmo com todos os seres, não fazendo diferença entre si mesmo e os outros, de modo que o assim-chamado ‘eu’ não existe.

Metta não é nem amor passional (pema) nem desejo de possuir (querer). Está acima do amor humano normal do cuidar, confiar e respeitar. É universal e sem limite em seu escopo.

Metta possui um poder magnético que pode produzir uma boa influência sobre os outros, mesmo à distância.

~ uma tradução de Marcus S.

09 Outubro 2011

DOSA


... ódio, raiva, má vontade

Ela vem com muitos nomes e faces, como antipatia, rancor, inimizade, aversão, etc. Também aparece de uma forma sutil em represália a um resultado, chateado com a incerteza da vida, no ressentimento... e disfarçada; dosa é o tédio, indecisão, frustração, inveja, desamparo, ignorância, etc.

A raiva é facilmente abrigada no coração, especialmente com relação àquelas palavras que não são adequadas para os ouvidos / ego. A raiva é motivada por uma causa, seja ela uma picada de mosquito ou uma visão repugnante. Há duas causas:

1. A natureza repulsiva / negativa do objeto. As coisas estão mudando o tempo todo. Elas não são permanentes. Assim são nossos pensamentos, sentimentos e percepções. Se não houver escuridão, não haverá claridade.

2. A atenção não sistemática para a natureza repulsiva. Um tolo vê o favorável com avidez e o negativo com raiva, enquanto a visão sábia vê o favorável com bondade amorosa e o negativo com desapego.

A maneira de superar a raiva inclui bondade amorosa (metta) no coração, compaixão (karuna), um senso de equanimidade (upekkha) e a correta compreensão da Lei do Kamma. E se todos os quatro falharem, evite a situação.

~ uma tradução de Davi D.

08 Outubro 2011

ANICCA


…impermanência; transitoriedade

É pelo fato da impermanência que derivam as outras duas características; dukkha (sofrimento) e anatta (não-eu).

Tudo o que surge e se dissipa é anicca. Tudo que é anicca é sofrimento, e tudo que é sofrimento é não-eu. Anicca é uma lei natural do universo. Tudo – vivo ou sem vida, mental ou material – está sujeito a mudança.

Na lei do kamma (causa e efeito), tudo é a criado por suas causas precedentes e por sua vez é também a causa dos efeitos posteriores.

Portanto, a existência é um fluxo de mudança sem fim. Não é anicca que causa sofrimento, mas o apego e a ânsia de que as coisas sejam permanentes e eternas.

As últimas palavras do Buddha foram... “Todas as coisas compostas estão sujeitas a mudança, se esforcem com diligência.”

~ uma tradução de Carlos F.

07 Outubro 2011

ABHAYA

...sem medo

Abhaya-dāna - Ofertar o destemor, a confiança, a afabilidade, a tolerância. Com respeito ao objeto do oferecimento, quando se oferece o espaço, a complacência e o tempo para que os outros se sintam a vontade para estar e pensar, ou quando não se deprecia as suas capacidades ou se aponta suas fraquezas, cada um desses é considerado como oferta de destemor.

No Angutara Nikaya, no “livro dos três”, verso 172, o Buddha diz que devemos dar de tal modo que o recebedor não se sinta humilhado, depreciado ou ofendido. Devemos dar com a consideração e o respeito corretos e fazer o beneficiado sentir-se aconchegado, bem vindo e feliz para voltar.

O envolvimento pessoal no ato de dar - como o dar com as nossas próprias mãos e a promoção da concórdia através da nossa preocupação, boa vontade e comprometimento em relação ao ato - reforçará seguramente a qualidade do nosso abhaya-dāna.

Será desta forma, e ainda mais, se dermos coisas que estão em bom estado, de boa qualidade, úteis e apropriadas, e não aquelas coisas que são próprias para serem jogadas fora.

~ uma tradução do Jorge F.

05 Outubro 2011

O discurso em Stanford de Steve Jobs

Em 2005 escrevi sobre Shinran & Steve Jobs. Citei uma frase do maravilhoso discurso de Jobs em Stanford (o link para o discurso integral em inglês aparece no post acima). Agora eis aqui em versão legendada.


Uma versão traduzida está aqui, feita por nossa amiga Amandina.

04 Outubro 2011

Dalai Lama e a África do Sul

"Sua Santidade, o Dalai Lama, foi agraciado recentemente com o Prêmio Internacional Mahatma Gandhi pela Paz e Reconciliação. Esta honraria lhe seria entregue pessoalmente na África do Sul pelo Arcebispo Desmond Tutu e por Ela Gandhi (neta do Mahatma). Sua visita estava programada para os dias 6 a 14 de outubro, contudo, não foram concedidos os vistos, o que resultou no cancelamento da visita. Desnecessário lembrar que o vice-presidente da África do Sul, Sr. Kgalema Motlanthe esteve na China a semana passada, acertando acordos comerciais com seu parceiro preferencial".

Nada de Dalai Lama para a África do Sul

A convivência nasce do diálogo

"A convivência nasce do diálogo que celebra nossas diferenças"
S.S. o Dalai Lama

Transcrição de Juliana Ortega
São Paulo, 17 de setembro de 2011.



"Eu me dirijo a vocês como um ser humano. E vejo que vocês também são seres humanos. Então, entre nós não existe nenhuma diferença, nem mentalmente, nem emocionalmente, nem fisicamente. E, mais importante, todos nós devemos ter uma vida plena, e todos nós temos o direito de alcançar a felicidade que almejamos.

Certamente, em um nível secundário, existem diferenças entre nós. Eu, por exemplo, nasci na Ásia, nasci no Tibet, eu sou budista. Mas no nível fundamental não existe diferença entre nós, somos todos iguais. E é nesse nível fundamental que nossa comunicação deve acontecer.

Na realidade de hoje, é chegado o tempo em que é possível desenvolver um conceito de Nós. Toda a comunidade integra um ente único, que somos Nós. No passado havia um sentimento de Nós aqui de um lado e do Outro apartado de Nós. Mas no mundo moderno, por causa da economia global, por causa das questões ecológicas, do crescimento populacional, o interesse de um país é totalmente ligado ao interesse dos demais países. O interesse de um continente está ligado aos interesses dos demais continentes. Então hoje nós temos relações de um país para com todos os demais, de um continente com todos os demais. Essa é a realidade de hoje. E a sociedade não pode se desenvolver sem recursos que vem de outros continentes. Essa interdependência, ou seja, essa unicidade da humanidade deve ser compreendida para um futuro saudável.

No passado, nós dávamos muita ênfase a esse conceito de Nós de um lado e Eles do outro. Em consequência disso, muitos problemas desnecessários acabam aparecendo. As diferenças de nacionalidade, crença religiosa, classe social, nível educacional são secundárias e acabam criando discriminação e infelicidade. Apesar dessas diferenças, somos todos iguais à medida que somos seres humanos e vivemos no mesmo planeta.

No século XX, certamente assistimos o desenvolvimento de um inter-relacionamento entre nós, porém o século XX também veio a ser conhecido como um século de violência e derramamento de sangue. Alguns historiadores afirmam que mais de 200 milhões de pessoas morreram por causa da guerra e da violência, em guerras civis, inclusive com o uso de armas nucleares. E você poderia pensar que se apesar essa tremenda violência o mundo passou a ser mais pacífico, então poderíamos pensar em alguma justificativa para esse tipo de conduta. Mas esse não é o caso.

Muitos dos problemas que temos no início deste século são conseqüências de erros cometidos no século passado. Nesse século XXI nós precisamos ponderar, refletir sobre como podemos conduzir de um modo diferente. Quando os problemas aparecem e há a possibilidade de um conflito surgir, precisamos descobrir como resolvê-los por meio de conversações, de um diálogo. Precisamos construir o século XXI como o século da paz. E para que isso aconteça é importante utilizar do conceito do diálogo. É importante enxergarmos que o uso da violência não constitui um método realista de solução de problemas. No passado, os interesses de cada país eram autônomos, então cada país tinha interesses separados dos de outros países. Se eu travo uma guerra com outro país, a derrota do inimigo significa a minha vitória. Mas na realidade de hoje, com essa grande interdependência entre nações e povos, não é mais realista pensar em termos de destruição do vizinho, já que destruí-lo representa também sua própria destruição.

Se olharmos para a guerra do Iraque e Afeganistão, poderemos ver que a ação dos americanos teve origem correta, mas o método utilizado foi equivocado. E quando você usa a violência, muitos resultados equivocados e indesejados aparecem. É muito melhor utilizar o diálogo.

Dentro dessa vertente, precisamos fazer do mundo moderno um mundo desmilitarizado, onde não haja armamentos. Então essa afirmação deve fazer parte do nosso sonho de ter um dia um mundo completamente livre de armas. E isso é uma coisa que pode ser alcançada passo a passo. Agora nós vemos que vários países tem agido no sentido de reduzir seu arsenal de armas, o que já é um bom começo. Mas enquanto estivermos diante desse esforço, temos uma tarefa a cumprir. Enquanto se avança no desarmamento externo, é preciso que se crie um desarmamento interno. A raiva, o ódio, o medo, a inveja, a ganância, essas são as causas primeiras da violência. É importante que prestemos mais atenção ao nosso nível interno de emoções. É a partir da nossa capacidade de lidar com essas emoções internas negativas que um dia o desarmamento externo poderá acontecer.

Eu vejo que existem muitas pessoas jovens na platéia e com vocês eu gostaria de dividir alguns pensamentos meus. Eu tenho hoje 76 anos de idade e pertenço à geração do século passado. Mas vocês que tem menos de 30, pertencem à geração do século XXI. A minha geração está se preparando para a despedida, está chegando nossa hora de ir embora. Mas vocês que são a geração do século atual precisam ter responsabilidade. Cabe a vocês visualizar como um mundo pacífico e compassivo pode ser criado. É importante que vocês tenham uma visão e disposição para trabalhar esse mundo pacífico. Para que isso possa acontecer, duas coisas são necessárias: primeiro é a visão, como já falei, e para isso não basta olhar apenas para o que está à sua volta. É preciso ter uma perspectiva ampla que abarque o mundo todo, uma perspectiva global. A segunda coisa é a educação. A educação é um instrumento que pode ser utilizado de forma positiva ou negativa. E isso depende inteiramente da motivação de cada pessoa. Por isso é muito importante que vocês prestem atenção para a qualidade do seu coração, que vocês cultivem o calor no coração. Primeiro para seu benefício próprio. Um coração cálido no peito certamente te dará uma vida com mais sentido. Essa qualidade garante um sentimento de autoconfiança e reduz o medo, permitindo que haja paz interior.

Agora eu quero falar como essas qualidades do coração podem ser cultivadas e desenvolvidas. Eu costumo dizer que existem três caminhos para isso. O primeiro é o caminho proposto pelas religiões teístas, que propõem o conceito de um Deus criador. Essas religiões oferecem um instrumento extremamente poderoso para lidarmos com o nosso egoísmo, com a nossa arrogância e contribuem definitivamente para uma visão menos egoísta. Deus pode ser entendido como uma compaixão infinita, como Amor, e então uma pessoa que se submete totalmente ao seu Deus e O segue de maneira sincera possui um instrumento muito poderoso para cultivar as qualidades do coração.

O segundo caminho é proposto pelas religiões não teístas, como o Jainismo, o Budismo e o segmento antigo do Hinduísmo. Elas não propõem a existência de um criador.

Essas três grandes tradições religiosas vão falar da lei da causalidade. Ela diz que se você pratica bons atos e propicia a felicidade de seu semelhante, isso redunda em seu benefício. Por outro lado, se a sua atitude é de ferir os outros, causar sofrimento e restrição ao outro, então isso leva a conseqüências negativas para você próprio.

Então, compreendendo isso, você deve ter como hábito isentar-se de prejudicar o seu semelhante. E, se possível, mais do que isso, você também deve servir o seu semelhante. Então, inicia-se um ciclo de paz que fortalece valores internos.

No planeta nós somos 7 milhões de seres humanos, e uma grande parcela da humanidade não tem um interesse sério em uma crença religiosa. Por curiosidade pessoal, das pessoas que estão aqui, quantas pessoas não tem engajamento sério com uma crença religiosa? (Muitas pessoas levantam a mão e o Dalai Lama ri). Então, é realidade.

Nós vemos muitas pessoas nos diversos países que não se interessam por um caminho religioso. O que não podemos negar é que os não crentes também fazem parte da comunidade. E para eles a alegria e a paz interior também são importantes. Para eles também é necessário cultivar valores internos. O problema é que as pessoas que não se interessam por religião não se dão o trabalho de aprender a desenvolver e cultivar valores como a compaixão, o amor, o perdão. Elas pensam que essas são coisas que pertencem ao mundo da religião. Mas essa perspectiva é equivocada. Os valores internos formam a base de uma vida feliz. Então, se uma pessoa busca a felicidade, ela não pode negligenciar esses valores internos. É claro que as religiões vão promover e cultivar esses valores, mas é necessário também que pessoas que não tem interesse explícito por religião possam desenvolvê-los. Dentro desse contexto, acredito que é preciso existir também uma terceira via em que os valores internos possam ser também cultivados sem necessariamente passar por uma religião, seja ela teísta ou não teísta.

Eu gostaria de falar para vocês um pouco sobre a história da Índia. Se voltarmos 3000 anos no tempo, encontraremos uma Índia que ainda não existia como país unificado, mas como uma infinidade de pequenos reinos, cada um com sua concepção religiosa. Essa diversidade de religiões sempre existiu na Índia. Além das religiões autóctones, muitas convicções religiosas do mundo migraram para a Índia e lá se estabeleceram de forma pacífica, de forma que hoje nós temos todas as tradições religiosas. E na história da Índia havia uma tradição religiosa que era absolutamente agnóstica, e ela simplesmente dizia que a única coisa com que deveríamos nos preocupar era essa vida e as coisas que aconteciam nessa vida. Não seria preciso se preocupar com coisas como Deus e religiosidade. Essa escola niilista era muitas vezes criticada pelos filósofos e até condenada, mas apenas do ponto de vista filosófico. Mas a pessoa que era seguidora do ponto de vista niilista era respeitada. É preciso que isso seja replicado nos tempos modernos. Devido ao pluralismo religioso, foi desenvolvido na Índia o secularismo e, nessa perspectiva secular as tradições religiosas não são desrespeitadas. Ao contrário, são respeitadas todas as pessoas, pertencentes a todos os credos, e também os não crentes. Desse modo, podemos falar que existe também uma maneira de promover valores internos a partir da perspectiva do secularismo.

Outro ponto que é importante ressaltar é que o secularismo relaciona-se com a noção de que a disseminação dos valores internos em um nível universal deve ser feita por meio da educação. Uma religião, por mais benéfica e maravilhosa que possa ser, jamais conseguirá ser universal. Daí surge a importância do secularismo, que permite a integração dos valores internos e o cultivo desses valores em um sistema educacional sem que precisem estar atrelados a uma religião. Já existem grupos de pesquisadores em vários países que estão voltados ao estudo de como introduzir valores morais e éticos na educação com base na perspectiva secularista. A partir dessa perspectiva, três conceitos fundamentam a noção dos valores internos: a experiência comum, bom senso e as descobertas da ciência.

O desenvolvimento de uma ética secular é extremamente necessário à humanidade. Nós vemos aqui em São Paulo um número cada vez maior de prédios e prédios cada vez mais altos. Mas ao mesmo tempo, na perspectiva de valores internos, pode ser visto um declínio, o que mostra um contraste. É aí que vemos corrupção, injustiças sociais e esses acontecimentos demonstram uma falta de valores morais, uma falta de fortalecimento de tradições éticas. E também existem no nível de relações internacionais, os países mais poderosos que tem uma cultura autoritária sobre os mais frágeis.

Uma pergunta que faço a vocês: aqui no Brasil, qual é o tamanho da distância entre ricos e pobres? Vocês estão felizes com esse hiato? Outra questão muito importante é a corrupção. Ela entrou pelo mundo todo, oriente e ocidente. Como é aqui no Brasil, ela existe? É pequena ou grande? Se olharmos para a situação da Índia, veremos que é hoje um pais extremamente democrático. A democracia se instalou firmemente na Índia. O poder judiciário é completamente independente e há total liberdade de imprensa. Diferentemente do que ocorre na China. Na Índia o governo é eleito pelo povo. Os governantes são responsáveis perante a população. Comparado com regimes totalitários a democracia é muito melhor, mas ainda assim existe a corrupção.

Então, é necessário, por meio da educação, criar um sentido de responsabilidade e preocupação com o outro, um sentido de que formamos uma comunidade e temos responsabilidade perante essa comunidade. E isso faz aparecer um sentimento de igualdade entre os seres. É importante registrar que para desenvolver esse tipo de valor é necessária uma visão de longo prazo, e é necessário reproduzi-la no sistema educacional, começando desde a infância e chegando até a universidade. Os valores internos fazem parte de uma vida feliz e são fundamentais para que uma pessoa seja feliz, par que uma família seja feliz, para que um país seja feliz e para que um planeta seja feliz."