"Nossas vidas são como a respiração, como as folhas que crescem e caem. Quando realmente entendermos sobre as folhas que caem, seremos capazes de varrer os caminhos todos os dias e nos alegrar com nossas vidas neste mundo mutável" ~ Ajahn Chah
10 Agosto 2011
08 Agosto 2011
A Função de um Centro Zen
Este texto é uma excelente descrição do que as pessoas deveriam saber e esperar de qualquer centro buddhista, não somente zen, e na verdade de qualquer instituição religiosa. Ele aqui é reproduzido, para o benefício de nossos leitores, com a permissão da Rev. Isshin, para a qual expressamos nossos agradecimentos. O texto se encontra em seu site Águas da Compaixão, onde se encontram vários outros textos também.
Hoje eu quero falar sobre a função de um Centro Zen. De uma maneira geral, podemos dizer que é para apoiar a prática; e é claro que é verdade. Mas temos um monte de ilusões sobre Centros Zen como também temos sobre os professores. E uma coisa que tendemos a pensar é que um Centro Zen deveria ser um lugar muito agradável para mim – em outras palavras, deve ser não-ameaçador (risos). Eu acho que um bom centro deve ser bastante ameaçador às vezes! Não é função de um centro cuidar do seu conforto ou da sua vida social. Com isso não quero dizer que não devemos ter eventos sociais – eu acho que são ótimos – mas não são a principal função de um centro. A função de um Centro Zen não é prover as pessoas uma vida social. Não têm necessariamente o papel de fazê-las sentirem-se bem, e não é para fazê-las sentirem-se especiais.
Essencialmente, um centro é uma ferramenta poderosa para ajudar-nos a despertar. Como uma sangha praticando em um centro, precisamos, sim, apoiar uns aos outros, mas a natureza desse apoio pode não ser exatamente o tipo de apoio que é frequentemente visto num escritório. Você sabe, o namorado de uma moça a deixa – “ô, coitadinha! Sabe, quando o MEU namorado me deixou …. ” (Risos) e lá vamos nós! Há uma atitude de “somos todos vítimas juntos nessa” que NÃO é apoio. Quanto mais praticamos, bem, tanto menos aquele tipo de apoio falso é o que se encontra num centro bom.
Deve ser um lugar, então, que nos dá apoio, sim, mas que também nos desafia, e nesse sentido somos todos professores uns dos outros. Alguns dos ensinamentos mais poderoso em um Centro Zen nada tem a ver com o professor, às vezes o ensino vem de uma outra pessoa, vindo diretamente da experiência dessa pessoa. Para ser honesta, estar ciente do que a prática real é, e compartilhá-la com os outros – é isso que torna um centro um tipo de lugar diferente para se estar.
Infelizmente, Centros Zen tendem a ser um pouco ego-perpetuantes: nós queremos que eles sejam maiores, melhores, mais importantes que o centro do outro cara, com certeza! Há correntes de ego muito sutis que podem circular em um Centro Zen, como em qualquer outra organização se não tivermos um cuidado especial.
E algumas reflexões sobre a sangha: um ponto é crucial – quanto mais tempo as pessoas vêm praticando, menos importante deve ser o papel externo delas. E por isso eu não quero que as pessoas que vêm praticado por muito tempo presumam que elas sempre serão monitores – às vezes, sim, claro, mas quanto mais alto o aluno, mais eu quero que a sua influência seja sentida através da sua prática, e através de sua vontade de não parecer importante; e de deixar os alunos mais novos começarem a assumir algumas das posições externamente visíveis.
A marca de alunos seniores é estarem trabalhando quando ninguém sabe que eles estão lá. Eu vejo pessoas trabalhando no escritório do Centro em horários estranhos, às vezes eu estou voltando das compras e eles estão trabalhando duro. Isso é um sinal de prática madura, fazer o que deve ser feito mantendo a nossa própria importância fora disso.
Pessoalmente, eu estou tentando ir por esse caminho, minimizando a enorme importância dada ao papel do professor. E eu quero que isso se aplique a todos os alunos mais velhos. Então, se você sente que não está tendo a oportunidade de fazer o que você costuma fazer, ÓTIMO! Então você tem algo muito bom com o que praticar.
Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossa fantasias. Assim, em nossa chateação, acabamos retornando à base da prática – que é, tanto quanto eu posso colocar em palavras, assumir mais e mais a posição de um observador em nossas vidas.
Com isso quero dizer que tudo em nossa vida vai continuar a ocorrer – os problemas, as dificuldades emocionais, os dias agradáveis, os altos e baixos, que são aquilo em que consiste a vida humana -, mas é a capacidade de não ser pego – de apreciar o que está acontecendo quando se é “bom”, de ter tranqüilidade quando se é “ruim” e de observar tudo isso, que é um trabalho contínuo.
A marca do amadurecimento da prática é simplesmente a capacidade, mais e mais e mais, de perceber o que está acontecendo e não ser fisgado por ele. Fácil falar, mas provavelmente 15 a 20 anos de prática rígorosa serão necessários antes que nós sejamos dessa forma uma boa parte do tempo.
E isso não é o estágio final. Quando não há nenhum objeto, nenhuma pessoa, nenhum evento, nenhuma coisa no mundo que me fisga, no qual eu esteja preso – quando não há nenhum objeto e nenhum self observando -, então há uma virada para o quê, para dar-lhe um nome, seria o estado iluminado.
Nunca conheci ninguém que eu senti que havia alcançado isto, mas algumas pessoas têm se saído bem e, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa assim, você sentirá a diferença que há em alguém que não é fisgado pela vida (necessitado, desejando ardentemente algo ou alguém, insistindo que a vida seja de uma certa maneira) – você perceberá que tal pessoa está em paz e livre.
Estas são as pessoas que são uma influência curativa e benéfica sobre toda a vida que está perto deles. Eles não precisam fazer nada – a cura vem da maneira como eles são. Essa transformação é o que queremos da nossa prática.Temos muita sorte de ter essa oportunidade nesta vida. Vamos aproveitá-la e fazer o nosso melhor.
A Função de um Centro Zen
de uma palestra de Joko Beck
Hoje eu quero falar sobre a função de um Centro Zen. De uma maneira geral, podemos dizer que é para apoiar a prática; e é claro que é verdade. Mas temos um monte de ilusões sobre Centros Zen como também temos sobre os professores. E uma coisa que tendemos a pensar é que um Centro Zen deveria ser um lugar muito agradável para mim – em outras palavras, deve ser não-ameaçador (risos). Eu acho que um bom centro deve ser bastante ameaçador às vezes! Não é função de um centro cuidar do seu conforto ou da sua vida social. Com isso não quero dizer que não devemos ter eventos sociais – eu acho que são ótimos – mas não são a principal função de um centro. A função de um Centro Zen não é prover as pessoas uma vida social. Não têm necessariamente o papel de fazê-las sentirem-se bem, e não é para fazê-las sentirem-se especiais.
Essencialmente, um centro é uma ferramenta poderosa para ajudar-nos a despertar. Como uma sangha praticando em um centro, precisamos, sim, apoiar uns aos outros, mas a natureza desse apoio pode não ser exatamente o tipo de apoio que é frequentemente visto num escritório. Você sabe, o namorado de uma moça a deixa – “ô, coitadinha! Sabe, quando o MEU namorado me deixou …. ” (Risos) e lá vamos nós! Há uma atitude de “somos todos vítimas juntos nessa” que NÃO é apoio. Quanto mais praticamos, bem, tanto menos aquele tipo de apoio falso é o que se encontra num centro bom.
Deve ser um lugar, então, que nos dá apoio, sim, mas que também nos desafia, e nesse sentido somos todos professores uns dos outros. Alguns dos ensinamentos mais poderoso em um Centro Zen nada tem a ver com o professor, às vezes o ensino vem de uma outra pessoa, vindo diretamente da experiência dessa pessoa. Para ser honesta, estar ciente do que a prática real é, e compartilhá-la com os outros – é isso que torna um centro um tipo de lugar diferente para se estar.
Infelizmente, Centros Zen tendem a ser um pouco ego-perpetuantes: nós queremos que eles sejam maiores, melhores, mais importantes que o centro do outro cara, com certeza! Há correntes de ego muito sutis que podem circular em um Centro Zen, como em qualquer outra organização se não tivermos um cuidado especial.
E algumas reflexões sobre a sangha: um ponto é crucial – quanto mais tempo as pessoas vêm praticando, menos importante deve ser o papel externo delas. E por isso eu não quero que as pessoas que vêm praticado por muito tempo presumam que elas sempre serão monitores – às vezes, sim, claro, mas quanto mais alto o aluno, mais eu quero que a sua influência seja sentida através da sua prática, e através de sua vontade de não parecer importante; e de deixar os alunos mais novos começarem a assumir algumas das posições externamente visíveis.
A marca de alunos seniores é estarem trabalhando quando ninguém sabe que eles estão lá. Eu vejo pessoas trabalhando no escritório do Centro em horários estranhos, às vezes eu estou voltando das compras e eles estão trabalhando duro. Isso é um sinal de prática madura, fazer o que deve ser feito mantendo a nossa própria importância fora disso.
Pessoalmente, eu estou tentando ir por esse caminho, minimizando a enorme importância dada ao papel do professor. E eu quero que isso se aplique a todos os alunos mais velhos. Então, se você sente que não está tendo a oportunidade de fazer o que você costuma fazer, ÓTIMO! Então você tem algo muito bom com o que praticar.
Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossa fantasias. Assim, em nossa chateação, acabamos retornando à base da prática – que é, tanto quanto eu posso colocar em palavras, assumir mais e mais a posição de um observador em nossas vidas.
Com isso quero dizer que tudo em nossa vida vai continuar a ocorrer – os problemas, as dificuldades emocionais, os dias agradáveis, os altos e baixos, que são aquilo em que consiste a vida humana -, mas é a capacidade de não ser pego – de apreciar o que está acontecendo quando se é “bom”, de ter tranqüilidade quando se é “ruim” e de observar tudo isso, que é um trabalho contínuo.
A marca do amadurecimento da prática é simplesmente a capacidade, mais e mais e mais, de perceber o que está acontecendo e não ser fisgado por ele. Fácil falar, mas provavelmente 15 a 20 anos de prática rígorosa serão necessários antes que nós sejamos dessa forma uma boa parte do tempo.
E isso não é o estágio final. Quando não há nenhum objeto, nenhuma pessoa, nenhum evento, nenhuma coisa no mundo que me fisga, no qual eu esteja preso – quando não há nenhum objeto e nenhum self observando -, então há uma virada para o quê, para dar-lhe um nome, seria o estado iluminado.
Nunca conheci ninguém que eu senti que havia alcançado isto, mas algumas pessoas têm se saído bem e, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa assim, você sentirá a diferença que há em alguém que não é fisgado pela vida (necessitado, desejando ardentemente algo ou alguém, insistindo que a vida seja de uma certa maneira) – você perceberá que tal pessoa está em paz e livre.
Estas são as pessoas que são uma influência curativa e benéfica sobre toda a vida que está perto deles. Eles não precisam fazer nada – a cura vem da maneira como eles são. Essa transformação é o que queremos da nossa prática.Temos muita sorte de ter essa oportunidade nesta vida. Vamos aproveitá-la e fazer o nosso melhor.
- tradução: Monja Isshin e Muriel Paraboni
03 Agosto 2011
Uma tradução para metta
Hoje no site do Nalanda, um artigo do Ven. Thanissaro Bhikkhu chamado "Metta Significa Boa Vontade", traduzido por Isabel Serrano e Pedro Cruz, lá de Portugal, para a Comunidade Nalanda.
'O que você faria se uma cobra entrasse em seu quarto?' O mestre de Thanissaro Bhikkhu se encontrou nessa mesma situação e resolveu depois de três dias ter uma conversa singular com a criatura. O autor relata que esse encontro o fez pensar sobre o significa real da palavra metta no Buddhismo. Ele questiona o entendimento comum de metta como bondade amorosa, amor bondade, etc, e diz que "a verdadeira felicidade é algo que cada um de nós, em última análise, terá de encontrar por si mesmo, e às vezes mais facilmente quando se percorrem caminhos separados".
Eis aqui um trecho importante do Karaniya Metta Sutta que expressa o desejo de felicidade de forma simples:
Felizes, em repouso,
que todos os seres sejam felizes no coração.
Qualquer que seja o ser,
forte ou fraco, sem exceção,
longo, grande,
médio, curto,
sutil, grosseiro,
Visível e invisível,
próximo e afastado,
nascido e por nascer:
Que todos os seres sejam felizes no coração.
Que ninguém engane o outro
ou despreze alguém em qualquer lugar,
ou que através de raiva ou resistência
deseje que alguém sofra. Sn 01:08
"Ao repetir essas frases", diz Thanissaro Bhikkhu, "você deseja não só que os seres sejam felizes, mas também que evitem as ações que levariam a um mau karma (pali: kamma), para sua própria infelicidade. Você percebe que a felicidade tem que depender da ação: para que as pessoas encontrem a verdadeira felicidade, têm que entender as causas da felicidade e agir sobre elas. Elas também têm de compreender que a verdadeira felicidade é inofensiva. Se dependerem de algo que prejudique alguém, então não vai durar. Aqueles que forem prejudicados irão, com certeza, fazer o que puderem para destruir essa felicidade. E depois há a simples qualidade da simpatia: se você presenciar o sofrimento de alguém, sentirá dor".
O Buddha nos diz que devemos pensar, quando somos atacados, caluniados ou feridos, assim: "Nossas mentes não serão afetadas e não diremos palavras maldosas. Permaneceremos com simpatia, com uma mente de boa vontade e sem ódio interior. Continuaremos dirigindo a essas pessoas uma consciência impregnada de boa vontade e, começando com elas, vamos nos manter dirigindo a todo o mundo uma consciência imbuída de boa vontade - abundante, expansiva, incomensurável, sem hostilidade e sem má vontade".
O Ven. Thanissaro assim conclui que: "Metta é melhor pensada como boa vontade, por duas razões. A primeira é que a boa vontade é uma atitude que você pode expressar a todos sem medo de ser hipócrita ou irrealista.Reconhece que as pessoas se tornarão verdadeiramente felizes, não como resultado do seu carinho por elas, mas como resultado das suas próprias ações hábeis, e que a felicidade da auto-suficiência é maior do que qualquer felicidade que venha da dependência".
Desfrutem desse excelente artigo no site do Nalanda: Metta Significa Boa Vontade
'O que você faria se uma cobra entrasse em seu quarto?' O mestre de Thanissaro Bhikkhu se encontrou nessa mesma situação e resolveu depois de três dias ter uma conversa singular com a criatura. O autor relata que esse encontro o fez pensar sobre o significa real da palavra metta no Buddhismo. Ele questiona o entendimento comum de metta como bondade amorosa, amor bondade, etc, e diz que "a verdadeira felicidade é algo que cada um de nós, em última análise, terá de encontrar por si mesmo, e às vezes mais facilmente quando se percorrem caminhos separados".
Eis aqui um trecho importante do Karaniya Metta Sutta que expressa o desejo de felicidade de forma simples:
Felizes, em repouso,
que todos os seres sejam felizes no coração.
Qualquer que seja o ser,
forte ou fraco, sem exceção,
longo, grande,
médio, curto,
sutil, grosseiro,
Visível e invisível,
próximo e afastado,
nascido e por nascer:
Que todos os seres sejam felizes no coração.
Que ninguém engane o outro
ou despreze alguém em qualquer lugar,
ou que através de raiva ou resistência
deseje que alguém sofra. Sn 01:08
"Ao repetir essas frases", diz Thanissaro Bhikkhu, "você deseja não só que os seres sejam felizes, mas também que evitem as ações que levariam a um mau karma (pali: kamma), para sua própria infelicidade. Você percebe que a felicidade tem que depender da ação: para que as pessoas encontrem a verdadeira felicidade, têm que entender as causas da felicidade e agir sobre elas. Elas também têm de compreender que a verdadeira felicidade é inofensiva. Se dependerem de algo que prejudique alguém, então não vai durar. Aqueles que forem prejudicados irão, com certeza, fazer o que puderem para destruir essa felicidade. E depois há a simples qualidade da simpatia: se você presenciar o sofrimento de alguém, sentirá dor".
O Buddha nos diz que devemos pensar, quando somos atacados, caluniados ou feridos, assim: "Nossas mentes não serão afetadas e não diremos palavras maldosas. Permaneceremos com simpatia, com uma mente de boa vontade e sem ódio interior. Continuaremos dirigindo a essas pessoas uma consciência impregnada de boa vontade e, começando com elas, vamos nos manter dirigindo a todo o mundo uma consciência imbuída de boa vontade - abundante, expansiva, incomensurável, sem hostilidade e sem má vontade".
O Ven. Thanissaro assim conclui que: "Metta é melhor pensada como boa vontade, por duas razões. A primeira é que a boa vontade é uma atitude que você pode expressar a todos sem medo de ser hipócrita ou irrealista.Reconhece que as pessoas se tornarão verdadeiramente felizes, não como resultado do seu carinho por elas, mas como resultado das suas próprias ações hábeis, e que a felicidade da auto-suficiência é maior do que qualquer felicidade que venha da dependência".
Desfrutem desse excelente artigo no site do Nalanda: Metta Significa Boa Vontade
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