30 Outubro 2010

Eleições e Nagarjuna

Confesso que meu interesse por política vai par a par com meu interesse pelas últimas novidades do BBB ou sobre a vida sexual das moscas da Austrália, mas em períodos de eleições é interessante perceber como parece que o mundo ao seu redor se exalta com os políticos (que, na verdade, não mereceriam um segundo olhar por sua falta de ética) e as pessoas parecem esperar que as outras sempre tenham opiniões e adotem partidos. Pessoas normalmente equilibradas começam a defender suas opiniões acaloradamente.

Em quem devemos votar? Na baixinha gorducha, brava, dentuça, que usa vestido vermelho e tem um amigo que fala errado (e não é a Mônica), ou no vampirinho muito mais articulado (e que pelo menos sabe se expressar), mas que no entanto tenta agradar todo mundo sem ter opinião própria? Então nessa última segunda-feira, pela primeira vez resolvi tirar a poeira do televisor e assistir um desses debates, que como sempre ocorre, demonstram o quão fundo é o buraco em que estamos por depender dos políticos brasileiros ~ ó Tiriricas!

Nagarjuna tem muito a nos ensinar aqui. Não pelos seus ensinamentos filosóficos profundos, mas simplesmente por sua existência. Nagarjuna é considerado como sendo alguém especialíssimo, o pai do movimento mahayana do Buddhismo e, assim sendo, é aclamado como patriarca fundador das principais escolas que surgiram a partir desse movimento. Terra Pura, Zen, Tien t´ai, escolas tibetanas, todas defendem que Nagarjuna foi seu fundador, ainda que todas tão diferentes entre si em prática e doutrina. Nagarjuna também teve inúmeras obras atribuídas a seu nome. Realmente um escritor/orador prolífico!

No entanto, quando a investigação histórica mais recente começou a se debruçar sobre Nagarjuna, começou-se a ver o quão pouco realmente conhecemos sobre essa figura considerada chave no Buddhismo. Filho de família hindu e mais tarde convertido ao Dharma buddhista, não se sabe ao certo em que século nasceu, que doutrinas exatas pregou, nem mesmo que obras realmente se pode atribuir a ele. Parece ter havido pelo menos uns três Nagarjunas vivendo em séculos e regiões diferentes e que, mais tarde, foram juntados numa só personalidade 'extra-temporal'. E dependendo das obras que se decida atribuir ao Nagarjuna original, teremos também um mesmo Nagarjuna dizendo e defendendo coisas opostas! Ele é o racionalista, mas também um alquimista; ele é um defensor do vazio, mas escritor de inúmeras obras defendendo o pensamento formal; ele é um crítico do buddhismo antigo e inovador ímpar, mas também um defensor do buddhismo antigo contra as inovações contemporâneas!

Nagarjuna
Em outras palavras, Nagarjuna é vazio. Nagarjuna exemplifica como a história buddhista não é diferente daquilo que fazemos no nosso dia a dia: criamos personalidades, projetamos nossos sonhos e esperanças em outros seres e no fim defendemos com unhas e dentes não tal e qual pessoa, mas sim aquilo que resolvemos enxergar e acreditar que o outro seja.

Estas eleições foram decididas muito tempo atrás. Há vários anos, quando todo o gabinete principal e assessores do atual presidente foram descobertos como corruptos, ladrões e comprados - só o chefe escapou de ser mandado embora. E então, surpresa surpresa, a popularidade do chefe dali para frente somente cresceu. Nascia naquela ocasião a idealização de um personagem, impermeável a qualquer vicissitude. E como todos os personagens políticos, vazio de existência inerente.

Sim, para o Buddhismo indivíduos e pessoas não existem em si. Eles são constructos, condicionados, entre outras coisas por nossas próprias projeções. E o debate político nada mais é do que isso: um debate entre criadores de opiniões, projetores de ilusões, psicólogos políticos que tentam mostrar seu ser vazio como possuidor de todas aquelas qualidades que os eleitores qualificam como 'boas' num certo momento histórico. Isso nada tem a ver com o que realmente pensam, fizeram ou hão de fazer. É a imagem que conta. E ganha quem conseguir projetar a imagem desejada mais eficientemente na mente do 'povo'.

O professor Santikaro mencionou certa vez que a conversa de ‘Esta pessoa falou isso, aquela aquilo, meu nome é tal, venho de tal lugar’, tudo isso é o que Ajahn Buddhadasa chamava de linguagem do povo, uma linguagem que fala sempre sobre pessoas, sobre o eu, sobre o ego, e revela a tendência de achar que as pessoas existem da maneira como falamos sobre elas.

Sem atenção nos envolvemos com essa linguagem popular, a linguagem da maneira como as coisas 'parecem' ser. Passamos por cima das contradições, da fragilidade dos seres humanos e da tendência avassaladora de criarmos ilusões. O poder é algo realmente fascinante. Como ele corrompe de forma democrática! O prazer e a felicidade viciam. Nenhum ser deseja sofrer, então quando alguém se encontra numa posição de poder, isso é demais para a maior parte das pessoas, talvez para todas.

Como disse um amigo esses dias, políticos são como fraldas, ficam sujas constantemente e sempre precisam ser trocadas. A menos que tenhamos a certeza da probidade moral de um dos candidatos e seu partido, a regra da fralda ainda me parece a melhor. Sempre troque, pelo menos não se dá o gostinho da estrutura da corrupção (que não é característica de nenhum partido, mas de todos) se fortalecer ainda mais. Não importa quem esteja lá em cima (ou lá em baixo, dependendo da perspectiva), o poder corromperá, as ilusões persistirão e a maioria continuará vendo tudo em termos de pessoas, egos (bons e maus) e absolutos. Na próxima eleição acontecerá a mesma coisa também, e mais uma vez será hora de nos lembrarmos de Nagarjuna:

"No desvanecer das impurezas da ação, há a libertação. As impurezas da ação pertencem àquele que faz discriminações e estas, por sua vez, resultam da obsessão. Obsessão, por sua vez, cessa no contexto da vacuidade".

"Compreendida independentemente, pacífica, não obcecada por obsessões, sem discriminações e variada em significados: tal é a característica da verdade".

Mulamadhyamakakarika ~ Nagarjuna

26 Outubro 2010

Feliz Karva Chauth!

Era uma vez uma mulher chamada Karva. Seu marido nadava num rio quando um grande crocodilo o alcançou. Karva não era uma mulher qualquer no entanto. Por causa de seu intenso amor e devoção ao marido ela havia adquido um poder feminino especial (shakti) e foi capaz de rapidamente amarrar o crocodilo com um fio de algodão. Ela então fez um pedido a Yama, o senhor da morte, que ele levasse crocodilo aos infernos e nunca mais incomodasse seu marido. Bem, Yama recusou, e então Karva ameaçou de jogar uma praga no próprio Yama, caso não atendesse seu pedido. Yama não era bobo. Sabia que aquela mulher tinha um grande poder nascido de sua devoção ao marido (pativrat, a devoção da esposa). Yama enviou a fera aos infernos e abençoou o marido de Karva com uma vida longa e feliz.

Hoje na Índia se comemora o Karva Chauth, um festival em que as mulheres fazem um jejum do nascer do sol até o momento em que a lua nasce no horizonte a fim de desejar a longevidade e saúde de seus maridos.

Claro que atualmente várias feministas devem ver esse festival como mais uma forma de manter a mulher subserviente ao homem, uma forma cultural de manter a dependência feminina, etc.,etc. Mas podemos também ver por um outro lado, o da prática de algo cada vez mais esquecido em nossa modernidade, a demonstração de interesse pela saúde do outro. Numa época em que as relações são cada vez mais construídas sobre as frágeis bases do "o que eu ganho com isso" e "o que ele/a pode me dar e oferecer", aqui temos todo um feriado em que a mulher demonstra inequivocamente através de um sacrifício pessoal (o jejum) o quanto deseja que seu parceiro possa viver por muito tempo, o quanto deseja que seus anos juntos se prolonguem. Essa demonstração acaba encontrando a simpatia masculina, que percebe a sorte que tem de ter uma mulher com essa natureza. Se ele for um homem de coração bom sem dúvida isso fará com que ele a reconheça e ame ainda mais.

Nesse dia as mulheres não trabalham. Elas fazem desenhos com henna em suas mãos, e passam o dia conversando com amigas e parentes. É uma festa, afinal de contas, e uma festa é para ser alegre. Essa é uma festa feminina, frequentemente acompanhada de rituais, cânticos e pelas mulheres mais velhas da comunidade, as quais contam as diversas narrativas relacionadas ao festival. Depois de um dia de jejum, ela oferece uma oração à lua pela longevidade do parceiro, momento em que seu poder shakti está acumulado no máximo. Ela está em posição de fazer demandas ao próprio senhor da morte. O jejum é quebrado com o homem oferecendo a ela a primeira garfada a partir da qual ela passa a se alimentar novamente. E muito frequentemente ele também oferece a ela, como símbolo de seu reconhecimento, jóias e vestidos. Por vezes como sinal de empatia, ele também observa o jejum naquele dia, ou pelo menos se espera que os homens nesse dia sejam muito afetuosos com suas parceiras.

Numa outra estória relacionada ao festival, Yama aparece para pegar a vida do marido de Savitri. Savitri implora que seu marido viva. Yama recusa e parte levando o homem morto, mas Savitri jejua e segue Yama. Pelo poder acumulado pelo gesto de Savitri, Yama não tem outro jeito senão dizer a ela que pode fazer um desejo qualquer, menos pedir pela vida do marido. Savitri, que era bem esperta, pede que deseja ser abençoada com filhos. Acontece que Yama sabe muito bem que Savitri, como esposa devota, jamais seria capaz de ter filhos que não fossem de seu amado marido. É assim que Yama é forçado a restaurar a vida de seu amado.

No Karva Chauth vemos como uma cultura milenar transforma em festa, e portanto num ritual significativo e social, uma expressão de afeto e apreço pelo outro, incentivando as qualidades mais nobres do ser humano.

Karva Chauth no Wikipedia

21 Outubro 2010

Diálogo de Mentes Santas

Uma exibição única de escrita e caligrafia apresenta a sabedoria que transcende tempo e tradições ~ Bangkok Post de 21/10/2010, escrito por Vasana Chinvarakorn.

Os dois nunca se encontraram pessoalmente mas, de algum modo, compartilham insights maravilhosos e semelhantes. A exibição que acontece da escrita à mão de Buddhadasa e da caligrafia do monge zen vietnamita Thich Nhat Hanh é uma rara oportunidade para penetrar nas mentes desses dois homens santos. Embora o ambiente pareça bem simples - com as 'obras de arte' de cada um colocadas lado a lado num mural - os visitantes podem querer permanecer um tempo em frente de cada peça individual a fim de apreciar as pinceladas, assim como contemplar sua mensagem espiritual. Desprovidas de desenhos coloridos e complicados, a amostra transborda um senso inexplicável de frescor - mas somente se não nos apressarmos da mesma forma como fazemos em nossas vidas.

Uma exemplo das 'obras de arte de Buddhadasa e Thich Nhat Hanh com mensagens espirituais - apesar das diferenças na denominação religiosa, ambos compartilham muitos insights que transcendem o tempo e espaço. Ilustrações, uma cortesia de BUDDHADASA INDAPANNO ARCHIVES & PONGKWAN LASSUS/PLUM VILLAGE THAILAND

A amostra é feita para coincidir com a visita de Thich Nhat Hanh à Thailândia (no final deste mês) e o programa é um esforço inteligente de criar uma ponte entre duas grandes tradições do Buddhismo - Theravada e Mahayana. Durante sua vida, o monge reformista Buddhadasa tomou o entendimento interreligioso como uma de suas três missões fundamentais. Suas traduções de alguns sutras mahayanas em thailandês estão entre as primeiras do país, permanecendo como uma introdução clássica aos conceitos do Zen, da vacuidade e do como transcender as formas enquanto mantendo a essência dos ensinamentos do Buddha. A caligrafia em estilo chinês de Thich Nhat Hanh parece incrivelmente simples mas os convites de "Acorde", "Sorria" e "Respire Meu Caro" giram em torno de uma integração da presença vigilante no viver diário, uma prática universal compartilhada por todas as ramificações do Buddhismo (assim como por várias religiões).

Há também mais alguma coisa por trás do palavreado sucinto, e os curadores voluntários do Plum Village forneceram breves mas iluminadoras explicações, em thailandês e inglês, para cada uma das caligrafias de Thay ('professor' em vietnamita). Para uma que diz 'Desfrute um dia de não-eu', um comentário adjacente diz: 'Isto é para nos ajudar a ver a natureza de não-eu de nós mesmos e do que está à nossa volta. Somos feitos de elementos não-eu. Estamos uns com os outros, não somos um eu separado. Quando formos capazes de ver a interconexão entre nós e outros, sofreremos menos. Quando ainda vemos a separação, continuamos a sofrer'.

Buddhadasa Bhikkhu

Ou para 'Sem lama sem lótus': 'Sofrimento e felicidade estão relacionados. Eles inter-são. 'Sem lama sem lótus' nos lembra que a felicidade é possível porque existe o sofrimento. Nossa felicidade pode ser verdadeira felicidade quando podemos reconhecer, entender e transformar nosso sofrimento. Se nunca sentimos fome, nunca saberemos a felicidade de ter alimento para comer. Sabemos o quanto o lótus precisa da lama para crescer; também precisamos do sofrimento de modo a nos ajudar a crescer e compreender a verdadeira felicidade e libertação'.

De forma intrigante, Buddhadasa descobriu algo similar. Em uma nota escrita à mão, o fundador do mosteiro de floresta Suan Mokkh expressou sua gratidão, e mesmo se desculpou, a Mara (o Mal): 'Não tenho palavras para dizer o quanto lhe agradeço, Mara! Peço desculpas por ter nutrido ódio e raiva contra você no começo. Cada movimento seu foi de fato um benefício para mim. Você me fez compreender meus próprios vícios e de que teria que trabalhar para por um fim neles'.

Frequentemente os comentários do monge theravada thailandês ajudam a sublinhar o significado latente dos aforismos de sua contraparte vietnamita. Por exemplo, o pedido em uma palavra de Thich Nhat Hanh, "Sorria", é a observação de Buddhadasa sobre os dois tipos de sorriso - um que ainda está preso às sensações mundanas e o outro que vem da consciência da Nobre Verdade. Ambos também colocam forte ênfase na mensagem buddhista de paz que abrange a não-discriminação e a não-dualidade.

Thich Nhat Hanh

Talvez o melhor exemplo dessa convergência de mentes espirituais é a justaposição do círculo em uma pincelada de Thich Nhat Hanh e o poema de Buddhadasa, parte do qual foi traduzido para o inglês pelo próprio monge:

Faça todos os trabalhos com uma Mente Vazia,

Entregue os frutos para o Vazio;

Alimente-se dos depósitos do Vazio,

Morra desde o Começo.


Por debaixo de sua aparente imagem austera, as notas pessoais de Buddhadasa regularmente revelam aqui e ali seu senso de humor pontual (que é ainda mais evidente na série de fotografias branco e preto do monge, complementadas por seus poemas de dharma que foram reimpressas num grande número de livros e calendários). Em uma é sugerida a possibilidade de encontrar a felicidade a cada momento, mesmo quando se está no banheiro. Um conjunto de 'axiomas improvisados' compartilha suas visões ecléticas sobre os modos peculiares do mundo, como quando a política motivada pelo egoísmo se impinge num assim chamado bárbaro de forma a ser tão ridícula que ele explode em riso até quebrar seus dentes, ou como alguns humanos são irracionalmente temerosos de fantasmas que não conseguem nem aterrorizar cachorros e vermes. Embora a seleção de caligrafias para esta exibição não mostre muito do lado não-tão-sério do mestre zen, há vislumbres de seu humor gentil tacitamente presente num grupo de ditos descomplicados.

A fim de apreciar a beleza estética e espiritual da exibição, se deveria gastar um tempo contemplando cada peça individual desenhada ou escrita pelos dois mestres.

Passeando pelos pares de notas e pinceladas de Buddhadasa e Thich Nhat Hanh, sentimos que de alguma forma os dois provavelmente se engajaram em uma 'conversação' amigável por longo tempo, uma conversa que coloca de lado a cor de seus mantos ou a escolha da linguagem que adotaram como um veículo do dharma.

Aparentemente, tal diálogo continua vivo e bem, e agora convida mais e mais pessoas para fazerem parte dele.

'A Escrita do Dharma' acontece até 31 de Outubro nos Buddhadasa Indapanno Archives, dentro do Wachirabenchatat Park, Chatuchak, Bangkok. Telefone 02-936-2800 ou visite http://www.bia.or.th ou http://www.thaiplumvillage.org.

tradução para o português: Dhanapala

20 Outubro 2010

Alegre Viajante - 5

Continuação de Alegre Viajante - 4.
Ven. Saddhatissa
O Dr. Rewata Dhamma foi recebido no aeroporto por Samsari Lal, o qual, juntamente com sua extensa família, tornou-se um sustentador pelo resto da vida. O Sr. Lal foi o responsável pelo erguimento do movimento Ambedkar em Birmingham durante muitos anos, no que foi ajudado pelo Ven. Dr. Saddhatissa do London Vihara. Foi o Ven. Saddhatissa que oficiou a conversão em massa de 5000 pessoas em West Bromwich Town Hall em 1973. Seu interesse no Dr. Rewata Dhamma era o de que ele também trabalhou para o benefício dos antigos intocáveis enquanto residia na Índia. Sob as asas do Dr. Saddhatissa, ele participou do encontro monástico entre monges orientais e ocidentais em Praglia Abbey, perto de Pádua, no outono de 1977, e novamente em 1979. Artigos baseados em suas palestras apareceram no The Maha Bodhi, sociedade em que o Dr. Saddhatissa era um dos principais membros. Os dois frequentemente visitavam os viharas um do outro, e o Dr. Rewata Dhamma sempre falava com reverência a respeito do Dr. Saddhatissa como sendo seu professor na Inglaterra – como também o foi por um curto período de tempo na Índia.

Kalu Rinpoche
No final de 1976, foi encontrado um apartamento para o Dr. Rewata Dhamma no subúrbio de Handsworth, no norte de Birmingham, numa época em que ele já estava bem integrado na vida buddhista da cidade e de Wolverhampton. O ano de 1978 viu a primeira celebração de seu Dia do Buddha numa escola da vizinhança, que foi um evento ecumênico. De um lado do palanque estava o Ven. Sadhatissa, liderando um grupo de monges Theravadas de seu vihara em Chiswick. Do outro lado estava Kalu Rinpoche, o tutor do Karmapa, liderando um grupo de monges tibetanos. Como Bhante recordou muitas vezes depois disso, a forma original do Buddhismo praticado na Birmânia foi o Vajrayana e isto deixou muitos traços na prática popular de lá. Tibetanos e birmaneses pertencem ao mesmo agrupamento racial; de tempos em tempos, enquanto ouvia palestras de professores tibetanos visitantes, Bhante me disse certa vez, havia palavras que ele reconhecia como idênticas em sua própria língua.

No final de 1978 ele se mudou para uma casa em Carlyle Road, Edgbaston, estabelecendo o então chamado West Midlands Buddhist Centre. Foi um lugar único, pois estava sob a patronagem Karma Kagyu e era o único lugar no mundo onde as tradições Theravada e Tibetana floresciam sob o mesmo teto. Havia também uma íntima conexão com aqueles que praticavam o Soto Zen, que permaneceu até hoje. Quando o então responsável americano do Throssel Hole Priory fez uma visita para dirigir um retiro de meditação, aqueles praticando as vias Tibetana e Theravada se juntaram a ele para se sentar olhando para a parede. O espírito daquela época contribuiu para a cooperação ecumênica contínua entre buddhistas em Birmingham. ‘Nossa ponte dourada’ era o termo para descrever Bhante usado pelo Karmapa quando veio abençoar a casa em novembro daquele ano.

04 Outubro 2010

Tiririca

Tiririca
Tiririca ser o deputado federal mais votado do Brasil, um dos 4 países emergentes do 'futuro' poderio mundial, não é uma surpresa. Tiririca ser eleito por um povo que faz escolhas ignorantes constantes há anos é apenas um retrato da 'pátria amada, Brasil', uma fotografia do que já acontece na mentalidade brasileira faz muito tempo; Brasil que há muito, não importando se classe rica ou pobre, educada ou analfabeta, escolhe que seus melhores modelos sejam atores (e há tantos tipos de atores e estrelas!).

No país da máscara e da afetação, o que importa é o show, o quanto você se esforça para aparecer - se através de deslealdades, traições, nudez, corrupção ou baixaria, isso não importa - , o que importa é ser show, aparecer na mídia o mais possível, pois isso é o que tem valor. Não importa, no final, se em falta de decoro um governante faz uso de seu tempo e salário públicos, destinados a governar um país, para angariar votos para seu partido; não importa que você tenha que tirar a roupa, xingar ou ser desleal, desde que possa aparecer constantemente no BBB ou A Fazenda; não importa qual o crime que você cometa, uma vez que é motivo de orgulho para o bandido aparecer no Zero Hora ou qualquer 'se torcer o jornal sai sangue'. No final, o denominador comum aqui é o show.

Num país que é conhecido pelo Carnaval, Futebol e Criminalidade (são as únicas coisas que perguntam lá fora sobre nós do Brasil), esse trio tem mais em comum do que imaginamos. O valor está no show, na fantasia, na ilusão, mesmo que dure pouco. E não satisfeitos com a duração, estendemos o Carnaval para muito mais dias e ocasiões, comentamos futebol todos os dias na tv, rádio, jornais; e os criminosos se esmeram, na favela e no congresso, para ver quem aparece mais na mídia. Pouco importa para nós a natureza oca das estrelas carnavalescas, a vida imoral dos jogadores ou o passado vendido dos políticos. Eles aparecem? São estrelas? Então comentamos, apoiamos, votamos.

E quando nosso mais popular presidente, que 80% da população imagina ser um ótimo governante - apesar de ser constantemente cego e afirmar-se inconsciente de todos os escândalos que o rodeiam -  critica a mídia por uma cobertura pouco imparcial - provando aliás que aqueles que criticam um governo são sempre burros e irresponsáveis quando nós somos o governo, mas quando nós é que estamos na oposição, a mídia que nos critica é sempre fantoche do status quo -  não podemos mais que concordar com ele. A mídia, sim, é parcial.

A mídia é parcial, não porque revela os fatos verídicos e desagradáveis de nossos políticos (todos eles) e de nosso corrupto sistema de três poderes (que mais parecem com três beatas fofoqueiras que apóiam umas às outras), mas porque em nome da venda e da forma mais baixa de comércio, incentiva o show. É a mesma mídia que faz reportagens tão 'sérias e responsáveis' que também glorifica as novelas, os artistas, a fofoca institucionalizada, o criminoso na primeira página. É a mídia que dedica 95% de seu tempo no rádio, tv, internet e jornais ao que há de pior ou de mais frívolo na sociedade com a desculpa de que com isso mostra o Brasil real. Quando a mídia critica o governo ou seus opositores, a força motriz continua sendo a venda. Não vende falar do bem praticado, das pessoas com valores, da beleza não comprável. São os sistemas de informação que realmente controlam e manipulam. Tanto faz quem esteja no poder.

A mídia transformou os shows de 'realidade' em 'Brasil real', onde criminosos sendo perseguidos e policiais tornados heróis são degustados pela massa; acidentes automobilísticos são eventos sangrentos e tornados shows desejáveis; palhaçadas políticas e retratos de políticos comprados e vendidos são estampados nos jornais e objetos de comédia; e a superficialidade bestializante das novelas, com seus atores que dão opiniões sobre tudo, torporificam a consciência enebriando a todos com um mundo vazio e pobre de real significado. Por que nos importa tanto saber a opinião de um artista sobre qualquer assunto? Sua opinião é tão válida quanto a de um médico comentando sobre arqueologia ou a de um cabeleireiro falando sobre filosofia grega (ou de um filósofo falando de moda e estilo de cabelo...). Mas para nós é importante. Quem aparece e dá show é importante. Esse é o Tiririca mais votado.

Não é para a falta de dedo de um político que devemos apontar (oops) ou para um palhaço ser eleito (um dentro muitos...), mas para a ausência de coração em nossos modelos. Devemos apontar é para a falta de decoro e compostura de toda uma sociedade que - por imensa influência da mídia, para a qual pouco importa quem faz sucesso ou quem está no poder, desde que consiga vender seu produto - escolheu a idolatria à máscara e ao show; que escolheu definir 'sucesso' como o escancarar da ambição do ego; uma sociedade que não importa se classe A ou Z, tem os mesmos valores no fundo, onde o amor ao saber (filo-sofia) se transformou em saber de sexo e sedução; onde arte se transformou em exibicionismo; onde a lei da liberdade se tornou a liberdade da lei, a arbitrariedade da vontade de quem manda e a legalidade da opinião de quem é estrela.

Não foram só ex-jogadores, fantoches, ídolos glorificados pela mídia, homens e mulheres de gravata e terno, personagens construídos em alguns meses, estrelas populares e populistas, ladrões e palhaços, que foram eleitos nessa eleição. Foram eleitos nossos valores, aquilo que dia a dia consideramos importante; valores que nutrimos, glorificamos e passamos aos nossos filhos. Foi só uma fotografia do que já se passa em cada um de nós, nada além.