28 Abril 2010

Swedagon e a rede


Na viagem de volta a Yangon, conversando com o ven. Jinabodhi, ele me disse como era importante estarmos conectados uns com os outros, e que o Buddhismo não devia ser visto como uma religião, mas como um modo de vida. Refletindo sobre isso no caminho restante vejo como são coisas realmente importantes. Essa comunhão entre pessoas se torna tão possível por meio do Dharma e qualquer um que já venha trilhando esse caminho por algum tempo sabe bem disso. O Dharma nos une nos objetivos na vida, nos princípios utilizados para viver, no modo como buscamos ver o desenrolar da existência diante dos olhos.


Sem esse dharma sobra o quê? Características pessoais, hobbies, gostos, desgostos e preferências. No Dharma tudo isso passa a ocupar uma posição secundária; é como se houvesse um fio invisível, mas nítido, que transforma pessoas até um momento atrás desconhecidas em companheiros de caminho. Networking é importante. Manter os laços dhármicos em rede e manter em mente que tanto quanto nos mantenhamos fiéis aos princípios de respeito, amizade, consciência e arrefecimento da cobiça, ódio e ilusão, esta rede nos acolhe e nos integra.




Hoje teve uma deliciosa ameixa amarela no almoço. Com exceção disso, um ônibus cheio de monges, um passeio pela maior stupa do mundo (Swedagon Pagoda), visita a alguns mosteiros de meditação, ter aparecido em rede nacional na TV e ter tido a foto com o vice-presidente no jornal oficial do país, nada de não usual no dia. Ainda andando passo a passo, inspirando e expirando, e apreciando o desenrolar do dharma.


fotos by Dhanapala, abril 2010 ~ Swedagon Pagoda, Myanmar

27 Abril 2010

Sadhamma no Uposatha

Então, são cento e um monges (destes uns dez estrangeiros), dez monjas siladharas (uma thailandesa) e dois líderes buddhistas laicos (um birmanês e um brasileiro) presentes neste ano para a maior entrega anual de títulos religiosos do país e talvez do mundo theravada.


O local espaçoso onde se dará a cerimônia fica ao lado de uma imensa stupa, a Upatasanti Stupa (pagoda), cuja altura é apenas 30 cm mais baixa que o mundialmente famoso Swedagon Pagoda de Yangon. Estarão presentes todo o alto escalão governamental, e os muitos patronos têm se esforçado para oferecer acomodações confortáveis e refeições deliciosas. A cerimônia de outorgação se dará à tarde e pela manhã houve a entrega de livros contendo foto e uma biografia daqueles que passarão pela cerimônia ~ em birmanês, claro. Tudo isso ocorre na nova capital birmanesa, Nay Pyi Taw, que muito poucas pessoas já tiveram oportunidade de conhecer, pois é uma cidade ainda em construção e primariamente governamental. Yangon (até pouco tempo a capital) e Mandalay (capital antiga do reino) continuam sendo mais populosas em número.

Manhã tranquila, laicos apareciam para fazer doações a alguns dos monges presentes para a cerimônia. Quem não veio preparado submeteu-se a um passeio pelo mundo da moda birmanesa, pois acharam melhor que fosse vestido a caráter. Nay Pyi Taw fica num platô, bem aberto e bem quente também. Agora, imaginem 40 graus com três camadas de roupas e um chapéu.

Horas depois, à tarde... agora é entrar no carro e ir em direção à stupa...


A segurança é muita. Hoje também é uposatha e haverá muitos visitantes...



A hora se aproxima, são centenas de pessoas no salão, parasóis brancos imitando árvores com folhas douradas pendentes lembram a Árvore da Iluminação, e logo uma fileira de theras dos mais sêniors do país entram no salão ao som de uma música tradicional. No dia anterior já havia acontecido um ensaio, então todos sabiam o que deviam fazer e quando. O caminho de todos é passo a passo, cuidadoso, alerta. Lembra-me o querido Maha Ghosananda, com sua paz passo a passo. Realmente não há porque correr. Tudo bem feito é para ser construído um passo de cada vez. E quando mal se percebeu, um edifício foi construído. Assim é com tudo na vida.

Depois da cerimônia, com presentes na mão e câmera noutra, uma volta pela stupa lá fora. Aqui, explodindo em luz...



Aqui os arredores e num outro ângulo..



25 Abril 2010

Katie, frappés e monges

Ao som de Katie Melua ~ estava passando uma entrevista dessa cantora no voo TG305 da Thai Airways rumo a Yangon ~ o sono bateu depois de dois dias de voos contínuos. O voo de pouco mais de uma hora foi tranquilo e lá embaixo foi possível ter uma visão do famoso rio Irrawardy enquanto preparávamos para descer. Eram pouco mais de 7 horas da noite e faziam 35 graus celsius quando pousamos em Yangon. Imaginem a temperatura ao meio-dia! Três monges e eu já estávamos sendo esperados por uma comitiva de representantes e fomos imediatamente encaminhados para uma sala bem confortável até que nossos passaportes fossem liberados e trazidos até nós.

O dia seguinte começa da forma ideal (não que eu não tente imitar na devida escala quando de volta ao lar) às 5h30 da manhã para um café da manhã composto de macarrão, vegetais, sopa de arroz, pão, geléia, frutas, ovos, etc. Há uma coisa que os birmaneses não toleram: um prato vazio à frente de seus convidados. Nem bem o prato apresente um esboço de que está se esvaziando duas ou três pessoas já se aproximam para enchê-lo. Pratinhos e cumbuquinhas vão se acumulando e aconchegando-se (melhor dizendo, espremendo-se) à nossa frente. Por aqui há um costume curioso, que já me lembrava das vezes passadas, em todas as refeições é servido sempre café e chá. Costuma-se tomar ambos, por mais estranho que isso pareça à primeira vista.

Num passeio às 6h30 da manhã pelas ruas, o calor já se faz sentir a ponto de gotejar. Saudades daquele hazelnut coffee frappé da tarde anterior! E tão logo bate as 10h30 da manhã já é hora do almoço! Opções vegetarianas e não vegetarianas das mais variadas. Mas onde está o queijo e o café expresso?

Uma coisa que sempre me vem à mente quando em visita a um mosteiro é o agradecimento aos monges e ao estilo de vida monástico. No mesmo lugar onde tomei o hazelnut coffee frappé no dia anterior havia, pelo menos, mais uma dúzia de opções de bebidas, para não falar dos doces, muffins, tortas e salgados. Mas no mosteiro comemos o que nos é oferecido. Não que a comida aqui não seja boa, pelo contrário, é deliciosa! Mas ela é o que é. Não podemos dizer que hoje preferimos requeijão ao invés de manteiga ou croissant no lugar da sopa de arroz. As escolhas que temos são de comer ou não comer. Então optamos pelo ‘sim’, satisfeitos por ter o que comer, agradecidos pela generosa oferenda, felizes por termos essa oportunidade. A vida monástica nos estimula a pensar assim, e é bom, muito bom para a mentecoração.

Isso me faz lembrar da Katie (aquela do início desta folha). Nascida na Georgia (não dos Estados Unidos, mas da Europa) ela disse na entrevista que teve uma infância com várias privações (lembremos do leste europeu pós-comunismo), mas que não era consciente disso até se mudar para a Grã-Bretanha com sua opulência e variedade. Acostumamo-nos muito rapidamente a ter escolhas demais e começamos a querer isso e aquilo exatamente conforme nosso desejo. Em pouco tempo já ficamos insatisfeitos com tudo o que temos, pois sempre vemos uma falta, uma detalhe que poderia e ‘deveria’ ser diferente. Queremos isso e aquilo e queremos de uma forma exata e precisa. Queremos ovos, mas eles têm de ser fritos na manteiga, com a gema dura e servidos na temperatura e acompanhamentos corretos. Do contrário, reclamamos e, para alguns, o dia já foi estragado.

Não é assim com nossa vida? Constantemente o mundo nos oferece opções, muitas delas deliciosas e inesperadas. Mas a mente traiçoeira e mal acostumada já começa a procurar senões, faltas, impedimentos. Não, nem tudo é perfeito, se por perfeito queremos dizer ter tudo conforme os mínimos detalhes de nossa imaginação desejosa. Mas esta refeição aqui em frente é perfeita em sua singularidade, única naquilo que nos proporciona neste momento, completa em sua capacidade de preencher a mente que repousa no presente. Então, você topa estar aqui, nesta vida, com o cardápio que é ofertado neste momento? Ou tentará moldá-lo desejando ter mais opções do que as oferecidas, sofrendo, reclamando e, com isso, não vivendo? Porque são essas, sempre, as opções que temos, escolher viver ou escolher não viver; e ficarmos felizes seja qual for a opção escolhida.

23 Abril 2010

quase na Birmânia

"É um dos lugares mais belos do mundo", foi o que Marco Polo escreveu em 1298. Então, daqui do aeroporto de Bangkok, degustando um hazelnut latte frappe no Coffee World, daqui há três horas devo embarcar para esse lugar mágico que preservou o Buddhismo como nenhum outro país. É a terceira visita e apesar de breve dessa vez, promete ser tão estimulante e especial quanto das outras. Nas palavras de Rudyard Kipling: "Isto é a Birmânia, e ela vai ser diferente de tudo que você já viu".

22 Abril 2010

Paris-Birmânia

10 graus no aeroporto de Paris, finalmente depois de um cancelamento por causa da gripe A e um vai-num-vai devido ao vulcão Eyjafjallajokul, aqui estamos para em bre embarcar para a Birmânia (Myanmar) para participar da maior reunião de monges e líderes buddhistas que acontece todos os anos no país. Serão vários dias de programação intensa, muitas visitas a templos, autoridades monásticas, homenagens a relíquias e viagens. Quando for possível... fotos!

14 Abril 2010

A borboleta azul

O carnaval passamos num centro de retiros, em meio a mata e montanhas. Havia uma borboleta azul, grande, linda por lá, esvoaçando entre folhas verdes e meditantes. Ontem uma amiga que esteve no retiro viu o filme "Alice no país das maravilhas" e eis que havia uma borboleta azul no final da película. E hoje enviou a todos os que participaram: "Foi óptimo estar outra vez convosco ... através da borboleta!"

Imagens e sons nos trazem recordações. O mundo revisitado nos espelhos da vida. Cada coisa holograficamete revelando todo o mundo. Imagens e sons também nos revelam o mundo que temos dentro de nós. É tão fácil se conhecer, ou melhor, tão fácil conhecer o estado mental usual em que repousamos...ou agitamos. Quando diante de imagens, sons, aromas e sabores, o que notamos, o que pensamos? Investimos nossos próprios significados (ou a falta deles) no mundo que vemos; sentimos sua beleza ou o percebemos como desesperador e hostil. Não é preciso viajar para conhecer nenhum mundo. Basta ver as borboletas azuis. Alguns as matam com uma agulha no centro; outros as deixam voar, trazendo recordações e reflexos belos da vida.

01 Abril 2010

Retiro de Páscoa

A Páscoa é um dos mais importantes feriados no mundo ocidental. Três eventos muito significativos estão associados a ela. A Páscoa está relacionada à passagem do inverno para a primavera no hemisfério norte; marca a libertação do povo de Israel de seu cativeiro no Egito; marca a ressurreição de Jesus Cristo após sua crucificação. A Páscoa, assim, carrega em si os significados de passagem, libertação e renovação, três termos extremamente importantes em qualquer caminho espiritual.

Nesta Páscoa de 2010, entre 1 e 4 de abril, nos reuniremos em Curitiba para meditar e refletir sobre a Renovação dentro de nós, e sobre como a milenar tradição contemplativa do oriente percebe o processo de aprisionamento e libertação. Como ela pode nos ajudar a compreender os laços que nos prendem e que medidas efetivas podemos tomar? Nos três dias de retiro abordaremos três estratégias (uma a cada dia) combinando 'compreensão' e 'ação' derivadas dessa tradição contemplativa e passíveis de serem utilizadas por qualquer pessoa interessada em renovar e passar para uma nova fase, seja em que ponto que esteja em seu processo de desenvolvimento. Três técnicas ancestrais e ao mesmo tempo profundamente atuais em seu poder de transformação.

Apego e Liberdade

Na sequência ao retiro haverá um minicurso (dias 5 e 6) chamado “Apego e Liberdade”. Nas duas noites de que se compõe veremos como o apego é um processo mental que tenta enganosamente criar sensações que não estamos conseguindo vivenciar de uma outra forma. Ele se basea num engano sobre como lidar com a realidade e ao invés de termos uma vida mais feliz criamos um turbilhão por não percebermos o que realmente está ocorrendo. Compreender esses enganos e perceber o que realmente precisamos é o caminho para a liberdade em relação aos apegos e viver uma vida mais plena.

Vipassana e Yoga

E para aqueles que quiserem continuar a intensidade da prática ainda no sul do país ou quiserem participar unicamente do retiro seguinte, entre 7 e 11 de abril teremos nosso anual retiro "Vipassana e Yoga" de 4 dias em Garopaba/SC sob os auspícios da Montanha Encantada. Esse retiro serve como introdução à prática da Observação Vigilante, o elemento essencial de todas as tradições contemplativas do mundo, e nele abordaremos várias formas de desenvolver o Olhar Contemplativo da realidade exterior e interior como forma de Compreensão e Transformação de nosso viver no mundo.


http://nalanda.org.br/agenda/abril-2010