28 Fevereiro 2010

uma vida sem mágica

Uma das coisas mais misteriosas é tentar entender porque as pessoas agem como agem e, claro, porque deixam de agir. Na folha anterior mencionei um exercício possível para ajudar a recuperar a perspectiva de um presente aprisionador. René Descartes dá uma outra dica: 'Para saber como as pessoas realmente pensam, prestem atenção ao que elas fazem, ao invés de aquilo que elas dizem'. Verdadeiramente, estamos repletos de 'faladores' e poucos 'fazedores'. As pessoas falam que querem isso e aquilo, mas que passos efetivos estão fazendo para chegar naquilo que dizem 'querer'? Lembro-me muitos anos atrás de um cliente que regularmente me dizia de sua vontade de ter um livro escrito, e mencionava sempre o fato de eu, comparativamente tão novo, já ter livros escritos e publicados. Mas, quantas horas ele se sentava para efetivamente escrever? Nenhuma. Ficamos perdidos em nossos sonhos, uma imensa energia é gasta e, no fim, tudo ficou apenas no sonho, nada mais. A boca diz uma coisa, mas as ações dizem outra bem diferente. Uma extraordinária energia emocional desperdiçada da forma mais banal.

Nessa semana temos visto no Nalanda alguns ensinamentos do Buddha sobre a atitude do vitorioso. Ele nos lembra que só há um caminho, aquele que não pára diante dos ilusórios confortos e falsas seguranças, nem se agita insanamente debatendo-se sem sair do lugar. Isso exige sabedoria, sim, mas sobretudo não se entregar à preguiça, à fuga, ao deixar para uma outra ocasião. Na corrente do samsara, deixamos o passado para o passado, enterramos os mortos e dizemos uma prece, mas não chafurdamos no passado nem carregamos os mortos em nossas costas. Esquecer disso é nunca ter força para nadar, é ser carregado pela corrente, pois nosso apego àquilo que passou nos arrasta de volta ao ponto de onde nunca conseguimos sair.

'Daqui há alguns anos, você ficará mais desapontado com as coisas que não fez do que com aquelas que fez'. Mark Twain acerta no ponto preciso do medo, do fracasso, da vida sem qualquer chance de plenitude. Quem tem medo de fracassar, errar ou ser criticado tem seu lugar garantido entre a massa anônima dos telespectadores de novelas, big brother, dos que reclamam de como o mundo é injusto e não lhes oferece oportunidades. É uma importante lição do velho Twain, aquilo que você deixa de fazer e ousar pesa mais lá no futuro do que aquilo que você faz e, talvez, venha a fracassar. Existe uma mágica e um poder que se congregam em torno dos que agem ao invés de só pensar, dos que fazem ao invés de só desejar. O mundo de certa forma conspira a favor daqueles que ousam e agem.

22 Fevereiro 2010

no presente um futuro que ilumina

Um exercício que costumo propor para clientes, alunos e amigos com certa regularidade, e que, claro, exercito eu mesmo, é o de imaginar sua própria vida daqui dez ou vinte anos. Particularmente acho que isso, quando bem aproveitado, propicia uma incrível perspectiva sobre a vida no presente, nossas decisões, opiniões, confusões... Lá no futuro, faríamos novamente o que estamos hoje a fazer? Sentiríamos hoje o que sentimos se soubéssemos o que haveremos de saber daqui tantos anos? E ficaríamos contentes com aquilo que fizemos, dissemos e empreendemos? É certo que o futuro nunca é o que pensamos que seria mas, ainda assim, o exercício, creio, continua válido. Nos dá perspectiva, distância saudável que um presente próximo demais, estreito demais, nos faz embaçar a visão.

Por esses dias topei com um blog cujo título é muito interessante, My Journey to Mindfulness, e que, apesar do título e das muitas referências de leituras de autores bem conhecidos no círculo buddhista, não é um blog estritamente dedicado à prática da meditação ou coisa assim. Mas não é do blog que interessa falar aqui, mas da descrição do perfil que me parece tão bem expressar o que tenho em mente no primeiro parágrafo:

A Jornada de uma Mulher

Este diário é escrito para o meu prazer, meus filhos e netos. Compartilhar algo de meu passado, presente e pensamentos para o futuro. É o diário de uma alma sensível que entrou em sua terceira idade. Minha jornada de vida me levou para muitas estradas, com muitas viradas e quebradas. Não é a jornada que visualizei quando tinha 25 anos com um terceiro filho no horizonte. Amo o calor do sol, o som da chuva, o barulho do fogo, simplicidade e elegância. Encontro prazer em sentar-me na varanda com o chá numa xícara de porcelana e cavando a terra. Sou mais eu mesma nessa altura da vida do que jamais fui. Uma parte considerável de meu passado foi gasta no mundo dos negócios, em multitarefa e sendo super organizada. Hoje tenho tentado simplificar e ser mais vigilantemente observadora. Não é tão fácil quanto pensei, mesmo tendo muita solitude nessa época da vida. Meus dias voam e não creio que terei tempo suficiente na terra para fazer e experienciar tudo aquilo que é o desejo de meu coração. Uma coisa da qual tenho certeza é que não poderia ter seguido nessa jornada sem minha oração diária e o tempo para a meditação.

Talvez uma marca de amadurecimento, não sei, esteja resumido nisso. Ver a vida com mais perspectiva, deixar de perder tempo com o inútil, o gosto pelo olhar mais atento, a preferência pela simplicidade, pelo chá e pelo barulho do fogo e do vento.

E vocês, quando do futuro olham o presente, o que vêem?

17 Fevereiro 2010

Migalhas e Pipas

Dias atrás...

É muito bom ter uma convivência diária com muitos animais. Todos os dias temos bodes, vacas, macacos, esquilos, búfalos e galinhas andando entre nós. Bodes engordam para serem mais tarde sacrificados em algum templo hindu; vacas são intocadas por serem sagradas, macacos roubam bananas de nossas mãos (uma outra vez um surgiu de não sei aonde e roubou das minhas mãos três bananas destinadas a serem meu lanche), búfalos puxam o arado e as galinhas.... ora, as galinhas olham pro chão e ciscam. Incessantemente, hora a hora, dia a dia, elas voltam sua atenção para catar as migalhas do chão.

E como nesses dias tenho acompanhado um arqueólogo que tira fotos de sítios arqueológicos através de pipas (papagaios como alguns hão de conhecer), tornou-se comum ver os aldeões (e, claro, nós mesmos) se apinharem sempre que o “homem da pipa” chega, para olharem boquiabertos a pipa subir, lá no alto, ao sabor dos ventos de Bihar (o nome do estado vem do pali Vihara, por ser uma região povoada de templos!). Pelo menos metade do vilarejo deve acabar se acumulando aos poucos ao nosso redor e esse deve ser o evento do dia no passar cadenciado das horas, ou ainda, deve ser o evento da semana ou do mês! Assunto para muitas conversas à beira da fogueira tomando um chai. “Como aquilo pode voar? Pra que aquele homem branco faz isso? Porque alguém iria querer tirar fotos do nosso vilarejo, tremendamente comum e igual a todos os outros?”, devem ser algumas das perguntas. Ou talvez nenhuma delas, somente o olhar maravilhado de ver algo voando. A atração sem palavras e magnética pelo vôo, pelo céu, pela liberdade.


Na simplicidade avassaladora de suas vidas e nas alegrias simples de ver uma pipa voando, a imagem das galinhas eclode na mente. Por quanto tempo iremos olhar para o chão, catando migalhas? Os seres andam pelo mundo à procura de tão pouco. Muito esforço, angústia e trabalho para doses tão pequenas de prazer momentâneo, um pouco de conhecimento e reconhecimento, um pouco de amor aqui e ali, um pouco de atenção, um pouco de segurança... Migalhas. Só migalhas.

O grande mestre thailandês Ajahn Chah costumava dizer que se você quiser ter uma pequena felicidade, deve soltar um pouco. Se quiser ter grande felicidade, deve soltar bastante. Se quiser ter completa felicidade, deve soltar completamente. E se ao invés de andarmos pelo mundo à cata de migalhas, déssemos linha à nossa pipa, ver o mundo e a vida desde uma perspectiva mais ampla, tão ampla quanto o céu que a tudo abarca? Lá do alto, ao sabor dos ventos de Bihar, continuaríamos obcecados por buscar em tudo migalhas de liberdade, pedaços de afeto e conhecimentos transitórios?

13 Fevereiro 2010

Pisando no passado

Dias atrás...

Se eu fosse começar minha vida profissional de novo, arqueologia na Índia certamente seria uma a ser claramente considerada. Andar aqui é pisar (e quero significar literalmente ‘pisar’) constantemente em remanescentes passados. Note-se, por exemplo, Nalanda. Até meados de 1800, ninguém sabia onde era, e sua existência estava circunscrita aos suttas e comentários antigos e as descrições dos peregrinos chineses e indianos de séculos atrás. Aí um tal de Buchanan chegou por aqui e notou que dentro do perímetro de alguns vilarejos se encontrava uma quantidade enorme de esculturas, tanques, restos de construções de tijolos e pensou: “Ah, isso deve ter alguma importância!”. Mas o povo da região, hindus, disseram para ele que aquilo era o remanescente de uma cidade chamada Kundilapura, famosa na tradição purânica como sendo a capital do rei Bhimaka de Vidarbha, que foi o pai de Rukmini, esposa de Krshna. Ja os jainistas da região disseram a ele que aquilo era a capital do rei Srenika, a cidade de Pompapuri. E a coisa ficou por isso. Anos depois, em 1847, Kittoe também levado pelas tradições locais identificou o lugar novamente como a antiga Kundilapura. Foi somente em 1861 que o famoso arqueólogo Cunningham, descobrindo inscrições no próprio local que o identificava como a antiga e famosa Nalanda, começou a trazer atenção ao local. Somente 10 anos depois escavações sistemáticas começaram e o que encontraram foi surpreendente. Centenas de artefatos e as ruínas de uma grande stupa estavam lá, completamente enterradas sob a terra.
De repente, o mais importante centro de ensino dos tempos antigos havia sido descoberto. Lugar de nascimento de Sariputta, um dos grandes discípulos do Buddha, e segundo este, aquele que mais compreendia o Dhamma após o próprio Bem-Aventurado, Nalanda foi, por séculos, reverenciada por todas as escolas buddhistas. Numa conferencia em Nalanda em 2006, testemunhei o Dalai Lama dizer que todas as manhas ele se voltava para a direção onde estava Nalanda e fazia uma reverencia, pois toda a tradição buddhista tibetana devia sua existência a Nalanda. O historiador indiano Taranatha afirma que Asoka construiu uma stupa aqui para marcar o local do parinirvana de Sariputta, que Nagarjuna estudou em Nalanda e se tornou mais tarde seu abade. Mas foi mesmo no quinto século que Nalanda se ergue para a fama, gozando do patrocínio de reis por varias gerações. Com o rei Harsha de Karnauj (600-647), ele mesmo buddhista, Nalanda chegou a contar com 100 vilarejos a sua disposicao para prover alimento e recursos para seus alunos. É nessa época que o famoso peregrino chinês Hsuan-tsang a visita e estuda por la, provendo uma rica descrição de seu funcionamento. Quando da visita de I-tsing, um outro importante peregrino chinês, em 673, Nalanda já contava com 200 vilarejos para seu sustento e três mil alunos faziam seus estudos integrais por lá. Durante toda a dinastia Pala (do século 8 ao 12) Nalanda contou com ativo suporte real.

Recentemente se descobriu que a parte escavada de Nalanda representa apenas talvez 1/16 do que foi Nalanda. Nesses dias pudemos visitar vários lugares ao redor. Passamos pelo local onde se realizou o primeiro concilio; o provável local do concilio alternativo ao segundo, realizado pelos mahasanghikas; o local onde se acredita que Sariputta nasceu; e o que provavelmente se constitui a entrada norte de Nalanda original, numa fascinante maratona por entre vilarejos, conversas com aldeões, investigações arqueológicas e descobertas de estatuas claramente de buddhas e bodhisattvas, os quais são cultuados pela população hindu como sendo de deuses e guardiões. Vemos Manjusri e Mahamaya cercados de grinaldas e emanando o cheiro de oferendas de leite e incenso, protegidos por zelosos brahmanas inconscientes de seu real significado, quase como indicando que a sabedoria (manjusri) e a mãe dos buddhas (mahamaya) podem estar escondidos nos lugares em que menos se espera, mas que basta um olhar sabedor para revelar sua real natureza.

10 Fevereiro 2010

O chamado do olhar

Dias atras....

Lá fora o muezzin chama os crentes muçulmanos para a oraçao da noite. É um dos sons mais belos que existem no mundo, como se o universo abrisse a boca de sua profundeza e chamasse os homens para o louvor ao que é mais sagrado. É fácil entender, quando se escuta tal voz, como o Islam pode ser tão atraente. Ser chamado. É uma coisa séria. Para o que a verdade/realidade nos chama? Entupimos nossas vidas com tantos afazeres, desejos e superficialidades que perdemos completamente o contato com o chamado. Nem sabemos que isso existe.

Nestes dias tenho também escutado algumas palestras de um professor de vipassana por aqui, o mesmo que já citei uma outra vez. Um desses dias ele falou, entre outras coisas, da importancia de se contrabalançar a vida material com uma vida de constante busca pela profundidade. Em resumo, ele disse, precisamos nos fazer as perguntas: o que é o amor, o que é o soltar e todas as outras perguntas que levam a uma transformaçao. E citou de passagem o exemplo de Krshna e Radha da tradiçao hindu como exemplo de transformaçao pelo amor.

Agora, este é o modelo arquetípico do amor na Índia, e uma coisa interessante é que Radha era casada, e estava andando um dia, bem descontraída e nada procurando em especial, quando seu olhar cruza com Krshna. Krishna olha para ela, ela olha pra Krshna, e somente desse olhar nasceram séculos de expressao artística, milhares de poemas, cantos, esculturas de elevada arte que permearam a Índia com a noçao do “olhar”.

Qual é esse olhar que devemos buscar que nos eleva para além do cotidiano e da superficialidade, que consegue revelar para nós mesmos que somos outra coisa do que os outros pensam de nós ou que nós mesmos pensamos de nós; olhar que vê por trás das aparências e nos chama para a aventura da descoberta? Num sentido, todos buscamos cruzar com o olhar de Krshna (a realidade divina manifesta no mundo), o olhar que nos chama e incita, que nos desnuda e convida para superarmos nossos medos e pequenos desejos e juntar-se a Krshna na música que emana de sua flauta celestial. No encontro de olhares, que ambos não conseguem deixar de realizar e repetir, descobrimos um símbolo da atraçao que a verdade, na forma de liberdade, compreensao e amor, exerce naqueles que somente se colocam na posiçao apropriada para ouvir o chamado.

09 Fevereiro 2010

Viva Hoje e Sempre

A equipe do site “Viva Hoje e Sempre” selecionou este blog como sendo o melhor blog para o dia 28 de janeiro, dia de Traçar o Seu Caminho!

O objetivo “Viva Hoje e Sempre” é fazer com que as pessoas se lembrem de que a vida é cheia de pequenos momentos especiais e que não podemos deixá-los passar em branco, e o FOlhas no Caminho foi escolhido por ajudar a transmitir essa mensagem, fazendo parte da galeria de dicas para viver melhor hoje e sempre. Obrigado!

08 Fevereiro 2010

o dia seguinte ao conclave

Dia cheio, com muito material coletado, fuçando livros e voltando agora de um jantar com o pessoal do Barre Institute de Massachussets, um importante centro de estudos buddhistas dos Estados Unidos. Amanha, mais viagens pra variar...

07 Fevereiro 2010

Conclave Buddhista em Nalanda - 2



Um resumo do programa para hoje:

• Canticos buddhistas, caminhada e meditacao no Pico dos Abutres em Rajagaha.
• Painel de apresentacoes, entre elas ‘Buddhismo engajado: iluminacao para todos’, ‘aspectos do Buddhismo pratico’, ‘dukkha no consultorio do medico: aplicacao dos conceitos buddhistas no gerenciamento da dor numa clinica medica no ocidente’, ‘buddhismo engajado em Ladakh’, ‘rituais buddhistas em comunidades modernas em Maharashtra’, ‘Buddhismo socialmente engajado em Tripura’, etc..
• “Boul”, danca de Bengala Ocidental por artistas de Orissa, dancas de mascara e fogo de Bihar.

Velhos e novos amigos a encontrar...

06 Fevereiro 2010

Conclave Buddhista em Nalanda - 1

Um resumo do programa para hoje:

• ‘Andando nos passos do Buddha’, caminhada meditativa com canticos e em silencio ao redor do Xuanzang Memorial Museum
• Canticos e acendimento de lampadas
• Falam entre outros o ministro e o secretario do turismo, ministro-chefe do estado, etc
• abertura de exposicao, reuniao da imprensa
• painel de apresentacoes incluindo temas ‘contribuicao do Buddhismo para a cultura mundial’, contribuicao de Nalanda para o Buddhismo no Brasil’ ‘conceito de libertacao universal no Buddhismo’, impacto do Buddhismo na cultura viva de Magadh’, etc...
• ballet “Siddhartha” com artistas de Assam e Andra Pradesh, dancas de Bihar, jantar com o ministro do turismo da India.



Serei o segundo a apresentar. Disseram-se que o governador do estado por algum motivo me citou tres vezes em seus discursos publicos nos ultimos dias. Porque nao tenho vaga ideia...

Horas depois...

Eis a apresentacao aqui:


O tema foi a Influencia da Antiga Nalanda no Buddhismo no Brasil. A receptividade foi boa. Descobri que o Nalanda no Brasil apareceu citado na brochura oficial do evento aqui. Quem quiser saber mais sobre o artigo e apresentacao, pode ler na quarta-feira o jornal semanal coreano beopbo.com que tera algo por la. Em coreano... Mas quem nao souber coreano, nao se preocupe, eh possivel que saia alguma coisa sobre essa apresentacao tambem num jornal de Mumbai. Basta saber hindi ou maharashtra... ;)

05 Fevereiro 2010

Perto de Indra

Sabe a sensacao quando voce chega em um lugar que voce nem mesmo sabia que existia? Essa foi a aventura de anteontem. Todo um dia através de uma regiao rural da India, muitas pequenas estradas empoeiradas (e poe pó nisso!), na boa companhia de um arqueólogo frances, uma pesquisadora sanscritista da universidade Sorbonne, um monge theravada e um guia indiano, a fim de alcancar o local onde Sakka (Indra), o rei dos devas do ceu Tavatimsa, desceu a terra para fazer perguntas ao Buddha. O diálogo aparece no Sakkapanha Sutta.



Eu nem imaginava que esse lugar existia (e note-se que eu traduzi esse sutta muitos anos atrás) e tinha sido identificado, somente há dois anos, por este monge theravada e que coincide exatamente com as descricoes de Fa-hsien e Hsuan-tsang, os peregrinos chineses que visitaram o local séculos atrás.



Na foto acima, o monte onde está a árvore maior, nao é um monte, mas uma stupa, já coberta pela vegetacao rasteira e escondida aos olhos desavisados. Aqui um recorte feito no monte, revelando que tem mesmo uma stupa embaixo:





O arqueologo Yves, que eu ja havia encontrado em anos anteriores, é especialista numa técnica fotográfica que usa papagaios (pipas). As fotos saem fantásticas (aqui em baixa resolucao).







Para complementar (como se fosse preciso!), alguns vilarejos com esculturas antigas de buddhas e bodhisattvas que a populacao ja se esqueceu de quem eram e cultua como se fossem devas da religiao hindu, uma visita a uma escola rural cheia de criancas adoráveis e curiosas por fotografia, e finalizando com o local mais provável onde nasceu e morreu o grande discipulo do Buddha, Sariputta, e a stupa que marca o local.

03 Fevereiro 2010

O que dizem as estrelas

Um bom costume no final do mes é ponderar sobre como foi o mes que passou, aprender com nossas cabeçadas, aperfeiçoar as fraquezas, alegrar-se com as ondas mais favoráveis do destino. Platão até aconselhava fazer isso ao final de cada dia. Aqui na India é possivel fazer essa reflexão com a ajuda especial de um astrologo indiano, entao vejamos o que Pandit Ajai fala sobre o que deveria ter sido meu mês de janeiro, descrição baseada na confiabilissima descrição de uma coluna de revista:

Muitos desenvolvimentos acontecem este mês, então esteja pronto para muita ação em todas as frentes. Suas conquistas falam por você, a medida que você ganha o reconhecimento por seu trabalho. Ganhos financeiros estão indicados: você se sentirá seguro. Para alguns, este periodo indica um tempo para uma parceria profundamente intuitiva – você se apaixonará, novamente. Você e sua amada possuem um foco comum e tendem a valorizar o trabalhar juntos para a segurança e estabilidade daquilo que sentem que realmente é importante para vocês. Você pode esperar por uma celebração que trará alegria

Bom não?

Reconhecimento pelo trabalho, ganhos financeiros e amor, nao é isso que boa parte de todos os seres procuram? Ainda que buddhistas sejam um pouco reticentes em tomar isso muito a sério, fato é que a tradição hindu, e a buddhista em certa medida, reconhecem tais venturas como justificáveis na vida no mundo. Em vários suttas o Buddha exalta que a ação e esforço corretos tem como um dos resultados o reconhecimento pelo bom trabalho, recomenda que os ganhos materiais sejam administrados sabiamente inclusive com vista a seu aumento, e podemos lembrar que o proprio metta sutta diz que um dos resultados da prática de metta é tornar o praticante mais amado pelos seres, o que é uma admissão de que os seres gostam de ser amados e não há problema nisso.

Algo que ambas as tradiçoes complementam entretanto é que tais objetivos deveriam estar submetidos a um objetivo maior: a busca, encontro e realização do Dharma. O Dharma informa aqueles três objetivos com um acréscimo de significado, elevando-os da horizontalidade em que geralmente se dão, e recompondo-os numa esfera mais ampla. “Meu” trabalho, “meu” dinheiro e “meu” amor, podem assim se libertar da prisão angustiante do “eu e meu” e se tornarem simbolos que abrem portas para uma visão mais profunda (provendo uma nova forma de ver o trabalho, a propriedade e o amor), o que só pode acontecer quando o “meu” se retira para um segundo plano.

Eis então o que deveria ter sido meu mes de janeiro segundo o reputadissimo astrólogo daqui. Depois que lemos o nosso horóscopo acabamos lendo os de outros signos, não? Divertidamente, o que encontro é que em diferentes palavras todos os signos são descritos com as mesmas caracteristicas: um mes de muita ação, melhorias na carreira e pessoas interessantes ao redor. Nao é otimo que a astrologia indiana deseje sorte para todos? Se somos todos UM nada mais natural que compartilhar o mesmo destino!

02 Fevereiro 2010

O que nos falta...

Uma rua lamacenta onde se alinham talvez uma centena de pequenos comerciantes no burburinho das compras e vendas. Motos, bicicletas, monges e galinhas vem e vão. Nada parecido com que geralmente encontramos no ocidente porém. Esses pequenos comerciantes não tem lojas nem uma variedade de produtos para vender. Possuem um pano empoeirado colocado sobre a rua de terra, e aquilo que cada um tem para oferecer pode ser meia dúzia de peixes, um outro cinco cabeças de couve-flor, um outro um punhado que não chega a um quilo de vagem. Os compradores são igualmente pessoas muitos simples, a cidade em geral é subnutrida e enquanto centro de peregrinação atrai os inválidos, doentes e miseráveis em busca de alguma esmola. O emprego mais duro do mundo, uma pequena moeda em troca de centenas de ‘nãos’.

Uma tibetana tira de um saco algumas rodelas de pão para dar para as cabras e cabritos na praça. Ao lado das cabras, velhas senhoras sentadas no chão, esqueléticas, cujas saris coloridos já se desbotaram pela passagem dos anos (talvez os mesmos que vi a vinte anos atrás), cansados de serem a única vestimenta arrastada pelo solo poeirento. Cada uma tem uma cumbuca de metal para receber as esmolas esporádicas. Elas não recebem o pão. Somente as cabras. Por elas passa um menino, não mais que sete ou oito anos. Ele faz esforço para subir pelos degraus uma cadeira de rodas. Na cadeira, provavelmente sua irmãzinha, aproximadamente da mesma idade. Sem pernas.

Mais adiante, após uma mesa onde um toca-cd musicaliza o ambiente com mantras buddhistas, um velho pai acocora-se no chão e ao seu lado um garoto jaz numa toalha, imóvel, pernas completamente retorcidas. O que passa pelo coração de um pai ao ver que não há absolutamente nada que possa fazer pelo filho? Logo adiante uma mãe lamuria-se pedindo uma esmola e ao seu lado, seu filho pequeno. Também no chão. Cego.

Essas são imagens diárias da vida aqui, expressoes inequívocas do sofrimento universal, chamados que brandam compaixão e agitam o coração. Nosso andar aos poucos se curva, instintivamente envergonhado de ser bem nutrido, com uma altura nitidamente superior a média, sem problemas que sequer beiram aqueles da maioria que aqui vivem. No entanto, este é o normal aqui. Tão normal quanto os barbeiros que possuem um banco de plástico e uma navalha para atender seus clientes, os rikxás movidos a homens magros em suas bicicletas, tibetanos mil entoando seus mantras, as lojas de docinhos, o chá servido em taças de barro, crianças que sabem falar uma única frase em ingles para estes estranhos ocidentais que aqui vem parar: “Hello friend!”

26 séculos atrás o Buddha escolheu a vida de mendicante. Optou pelo modo de vida daqueles que foram esquecidos e colocados de lado pela sociedade. Como posse tinha um manto descolorido, talvez não muito diferente daqueles das velhas sentadas no chão ao lado das cabras, e, como elas, também carregava uma tigela de metal consigo. Escolheu comer pouco, pois talvez pouco era o que os mais pobres podiam doar e ele não queria privar os pobres de também eles poderem doar. Doar não é um favor que se faz, mas um privilégio que se tem a honra de poder exercer. Ele passou a vida andando a pé, não se sentava em tronos, e ao invés de mantras mágicos, de sua boca saía apenas o dharma, simples e direto, belo no início, no meio e no fim, que leva ao coração, independente do tempo, que convida a vir e ver. E quando encontrava com as pessoas seu olhar e modo sempre diziam, mesmo que silenciosamente: “Hello friend!” Quando seremos capazes de olhar diretamente nos olhos dos seres sofrentes, e ver o Buddha logo ali, diante de nós?

01 Fevereiro 2010

Suan Mokkh, Nalanda e coincidencias



E eis aqui a ultima entrada da Patchima a respeito da viagem em grupo pela Thailandia e Camboja: Viagem chegando ao fim... A viagem foi otima e o grupo mais.

Enquanto isso a viagem aqui na India prossegue, um pouco cansado por um "semi quase resfriado" (está bem frio pelas manhas e a noite...). E as coincidencias por aqui prosseguem, ou simplesmente eu conheço pessoas demais. Mas essa foi coincidencia mesmo. Estava aqui pensando com os botoes inexistentes sobre qual meio de transporte iria usar para chegar em Nalanda, relutando em fechar com qualquer um deles. E eis que hoje, apos a usual circuambulaçao e tempo passado em torno da Arvore do Despertar, quem eu encontro exatamente abaixo do portal de entrada? Bhikkhuni Dhammananda, a monja thailandesa velha conhecida. Estava aqui com um grupo de thailandeses. Para onde estará indo amanha? Nalanda. Tem lugar no onibus do grupo? Claro, venha!

Nos proximos dias do Folhas, deve aparecer alguma coisa escrita nestes dias passados aqui... Bom começo de fevereiro para todos voces!