Em o Agente Secreto do Bem falei sobre a bondade. Em Bad Bad Buddha Boy, falei sobre um oposto da bondade: a raiva. E o que falar sobre outro desses traços que incomodam tantas pessoas: o medo? O medo é uma resposta excessiva a uma certa lembrança de algum acontecimento. Nas estórias de ficção científica, os heróis se encontram com a possibilidade de mudar os acontecimentos, voltando ao passado. Dificilmente vamos encontrar uma máquina do tempo, então mudar os acontecimentos pode ser difícil. Mas, e se pudéssemos mudar a lembrança que temos deles? Mudar as emoções que associamos a um tal acontecimento? Ou nossa reação às lembranças? Seria possível mudar uma lembrança? Ela já não aconteceu?
Pois bem, num estudo da universidade de Nova York, os pesquisadores mostraram que há um modo de mudar as memórias, o que é particularmente interessante para memórias desagradáveis e associadas ao medo. Como as memórias estão associadas a acontecimentos, e estes estão associados a sensações, percepções, etc., se fosse possível mudar tais associações, as memórias já não causariam a mesma reação emocional. Mas aí que está, como mudar associações que já aconteceram? Teríamos mesmo que voltar ao passado? Não, e é aí que entra a pesquisa. Em resumo, ela mostra que quando uma memória surge novamente na mente, ou seja, quando nos lembramos dela, essa memória se torna novamente suscetível a ser modificada. Em outras palavras, ela tem um ponto fraco! E a estratégia aqui é construir novas associações quando ela surge, associá-la a *coisas* diferentes. Mas atenção! Da mesma forma que nossos heróis que voltaram ao passado, têm uma janela de tempo precisa para consertar o que foi feito de errado (e não poderíamos dizer que muito dos medos e ressentimentos consistem de erros sistêmicos em relação aos estímulos originais?), aqui também temos uma janela de tempo para reassociar as memórias antigas: seis horas. Melhor aproveitar então!
Para quem quiser saber mais sobre essa pesquisa, pode dar uma olhada nesse artigo em espanhol e outro em inglês.
Algumas outras dicas de artigos especializados:
- Welberg, Leonie. Fear: A window of opportunity free
- Gregory J. Quirk, Mohammed R. Mila. Neuroscience: Editing out fear
- Daniela Schiller, Marie-H. Monfils, Candace M. Raio, David C. Johnson, Joseph E. LeDoux, Elizabeth A. Phelps. Preventing the return of fear in humans using reconsolidation update mechanisms
- Catherine A Hartley, Elizabeth A Phelps. Changing Fear: The Neurocircuitry of Emotion Regulation
É interessante ver a ciência estudando isso, mas, cá entre nós, isso não é uma novidade para os meditantes de vipassana e de técnicas de vigilância, pois esse é exatamente um mecanismo conhecido por eles. Todas as emoções negativas e aflitivas estão associadas a sensações e percepções, as quais criam memórias específicas. Tais memórias são reforçadas quando reagimos durante seu reaparecimento, uma vez que nossas reações tendem a seguir os mesmos padrões passados. Através do treinamento meditativo, modificamos nossa responsividade basal a sensações e percepções, o que gera uma modificação na forma das reações. Ou seja, reassociamos memórias, e portanto as emoções a elas associadas. E tudo isso ainda dentro do prazo de seis horas!

2 comentários:
Curioso esta pesquisa ser publicada agora que o filme do Leonardo di Caprio sobre o tema está em cartaz. De qualquer forma, recomendo os seguintes filmes sobre o tema: Vanilla Sky (refilmagem do espalhol Abra los Ojos) e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of a Spotless Mind).
tenho algumas memórias indesejáveis...e elas já não tem o mesmo poder que tinham...a pratica da meditação combinada com a prática de várias outras atitudes que o Buddha recomenda vêm fazendo a diferença..
abs. Fátima
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