31 Outubro 2009

A verdadeira firmeza

Bhikkhus, estes dois extremos não devem ser cultivados pelo recluso. Quais dois? Indulgência sensual, que é baixa, vulgar, mundana, ignóbil e que conduz ao dano; e a auto-flagelação, que é dolorosa, ignóbil e conduz ao dano. O Caminho do Meio, bhikkhus, compreendido pelo Tathagata, evitando os extremos, dá visão e conhecimento, e leva à calma, à realização, à iluminação e ao Nibbana. E o que, bhikkhus, é esse caminho do meio? É o Nobre Caminho Óctuplo, nomeadamente: Compreensão Correta, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correto, Esforço Correto, Vigilância Correta e Concentração Correta”.

Essa é a formulação mais frequente do chamado Caminho do Meio, uma atenção em nossa prática para não cairmos nem na preguiça e na facilidade do prazer de um lado; nem, de outro lado, na mortificação, culpa e severidade dirigida a nós mesmos.

Caminho do Meio tem a ver com uma abordagem de cuidado para com o modo como agimos no mundo e como agimos internamente. Ajahn Buddhadasa diz que: “A verdadeira firmeza buddhista é uma prática nem rígida demais nem permissiva demais, mas tão somente moderada. Esse é o chamado majjhima-patipada ou Caminho do Meio no Buddhismo”.

Isso não é algo tão fácil. Manifestar cuidado é uma questão de atenção amorosa. Como um pai que estraga seu filho quando lhe dá tudo o que pede, a atitude de cuidar implica uma não submissão ao caminho fácil do prazer e gratificação imediatos. O filho pode não gostar no início, mas crescerá forte ao invés de mimado. Como um pai que estraga seu filho quando resolve todos os assuntos no cinto, a atitude de cuidado atento implica em ser inteligente para descobrir os caminhos não violentos mas firmes. E isso se aplica em todas as relações - pais-filhos, homem-mulher, professor-aluno, amigo-amigo, empregador-empregado, etc. -, não?

* para mais sobre o caminho do meio

29 Outubro 2009

a filosofia clareando o caminho

"Penso que no Ocidente especialmente, não há atenção suficiente ao entendimento intelectual daquilo que o Buddha ensinou. A leitura da literatura buddhista pode dar às pessoas uma energia e direcionamento, e também um contexto apropriado para a meditação. A filosofia buddhista é tão estreitamente ligada à prática! Ela pode clarear o caminho e apontar para o objetivo". Nyanaponika Thera

28 Outubro 2009

A solidão e sua porta

numa das paredes do museu Francisco Brennand lá em Recife ...

A solidão e sua porta
Carlos Pena Filho (poeta)

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório

01 Outubro 2009

A vida numa ermida é diferente da vida em um mosteiro

Que boa descrição! Lembra-me 'Insight pelo Método Natural' que Ajahn Buddhadasa tanto favorecia.

O que você fazia diariamente?

"A vida numa ermida é diferente da vida em um mosteiro. nas montanhas você segue seu próprio ritmo. É mais difícil do que parece. Manter sua prática sem os sinos e batidas usados para marcar os horários nas comunidades organizadas. Num grande local, como de meu mestre, as atividades grupais não são organizadas, mas acontecem quando são necessárias. Comemos juntos e algumas vezes trabalhamos juntos. Tarefas usuais são uma distração recebida com boas-vindas, uma quebra em relação à almofada de meditação ou um descanso para os olhos em relação à leitura. Além de meditar, ler e trabalhar, eu me sentava no quarto de meu mestre e o enchia de perguntas. Comíamos laranjas e bebíamos chá. Conversava com ele sobre coisas que estavam acontecendo em minha vida e ele me ajudava a aplicar os ensinamentos do Buddha nesta vida diária, minha vida de 'poeira vermelha'. Algumas vezes conversávamos sobre o que estava acontecendo no mundo. Escrevíamos poemas conjuntamente. Ruins, em sua maioria. Eu vagava pelas montanhas a fim de observar os pássaros, eu colhia vegetais selvagens para o jantar. Havia muito o que fazer".

Uma entrevista com Edward A. Burger, diretor de Amongst White Clouds, sobre o documentário a respeito dos eremitas da Montanha Zhongnan.