21 Fevereiro 2009

imperturbado nas circunstâncias externas

Hui Neng diz o seguinte no Sutra da Plataforma: "Virtuosa Audiência, o que significa sentar para meditar? Em nossa Escola, sentar significa obter absoluta liberdade e estar mentalmente imperturbado em relação a todas as circunstâncias externas, sejam estas boas ou ao contrário".

Tal afirmação é um eco de uma passagem antiga dos comentários pali, preservados pela tradição Theravada. Certa vez, quinhentos bhikkhus foram convidados para passar o período das chuvas em uma localidade que não conseguiu cumprir com a hospitalidade prometida. Durante três meses os monges comeram muito pouco, sobrevivendo das sobras que ganhavam. Uma vez de volta para a cidade de Savatthi, entretanto, foram recebidos com fartura de alimento. Um grupo de pessoas que acompanhava os bhikkhus nessa viagem e passou pelas mesmas provações comeu sem parar quando de volta a Savatthi, fazendo festa, cantando e dançando de alegria, a um ponto tal de causar perturbações. Os bhikkhus, no entanto, se comportaram da mesma forma comedida e equânime tanto num local como em outro.

O Buddha comentou sobre essa situação: “É da natureza do tolo se encher de tristeza e se sentir deprimido quando as coisas seguem mal, e estar cheios de alegria e se sentir estimulados quando as coisas vão bem. O sábio, no entanto, suporta os altos e baixos da vida”.

20 Fevereiro 2009

O espírito de Judas

Excelente entrada publicada hoje no Pico da Montanha. Enquanto arquétipos, Judas e Devadatta permeiam a história da humanidade. O autor delineia quatro etapas do processo de "judaização/devadattação". As quatro são, ademais, bastante conhecidas, na prática, por qualquer um que já se encontrou em alguma posição de liderança.

Tudo começa com o culto apaixonado. É a fase do enamoramento, quando elogios exagerados começam ocorrer, o indivíduo tenta ajudar, se dispõe para aquilo que é necessário, está presente, se oferece para assumir funções, não perde uma oportunidade para aparecer e 'dizer' estou aqui e te admiro. Por trás disso estão uma inveja e um querer ser o próprio ser admirado em sua personalidade, função, posição ou capacidades. Por vezes, incapaz de ser aquilo/aquele a quem se admira, a solução encontrada é estar perto de alguma forma, comportar-se como ele, pesquisar sua vida, imitar seu jeito e maneirismos, ou mesmo se aproximar daquilo/daqueles que são próximos de seu admirado.

Por vezes isso tem também a expectativa de ser eleito como "favorito", ter vantagens, retribuições. O que ocorre é que, se negado dos "privilégios" secretamente esperados, a inveja se manifesta como intriga, ódio e/ou mentira. Não podendo ser idêntico ao objeto admirado, resta o caminho da reunião dos aliados, aliança com elementos opositores que geralmente compartilham do mesmo sentimento de amor/ódio, intrigas e venenos. Num nível já psicopatológico e violento, chegamos à situação tão bem expressada por Patricia Highsmith em o Talentoso Mr. Ripley, em que mostra o quão longe alguém pode ir para tentar ser um outro.

16 Fevereiro 2009

Sendo bons no Zen

Um dos problemas que o zen enfrentou desde sua entrada no Ocidente foi a questão da moral, já que alguns de seus proponentes parecem explícita ou implicitamente colocar um desvalor no comportamento moral. Apesar de tradicionalmente samadhi (a prática de concentração e meditação) ser colocada conjuntamente com sila (comportamento moral) e panna (sabedoria, skr. prajna), particularmente no zen ocidental isso é esquecido. É parte das diluições a que nos referimos anteriomente. É, assim, um alívio ver o patriarca zen Huineng mencionar a importância do bom comportamento para a prática da meditação e atingimento da sabedoria:

"Virtuosa Audiência, em meu sistema (Dhyana) Samadhi e Prajna são fundamentais. Mas não fiqueis sob a errada impressão de que estes dois são independentes um do outro, porque eles são inseparavelmente unidos e não duas entidades. Samadhi é a quintessência de Prajna , enquanto Prajna é a atividade de Samadhi. No mesmo momento que atingimos Prajna Samadhi está presente; e vice-versa. Se vós entenderdes este princípio, ireis entender o equilíbrio entre Samadhi e Prajñā. Um discípulo não deveria pensar que existe uma distinção entre ‘Samadhi gera Prajna’ e ‘Prajna gera Samadhi ’. Sustentar tal opinião implicaria em considerar que existem duas características no Dharma.

Para aqueles cujas línguas estão preparadas com boas palavras mas cujos corações estão impuros, Samadhi e Prajna são inúteis porque estes mutuamente não se equilibram. Por outro lado, quando somos bons tanto na mente assim como nas palavras, e quando nosso comportamento externo e nossos sentimentos internos harmonizam-se entre si, então temos o caso de equilíbrio entre Samadhi e Prajna".

- Sutra da Plataforma, VI. Patriarca Hui Neng, trad. Cláudio Miklos, © Edições Nalanda, 2009

15 Fevereiro 2009

Bhante Uttaranyana em São Paulo

O Venerável Uttaranyana Sayadaw já está em São Paulo (segue amanhã para Curitiba) e nesse fim de semana está dirigindo uma oficina de meditação e ensinamentos para o grupo do Nalanda em São Paulo. Ven. Uttaranyana é natural da Birmânia e atualmente reside num mosteiro Theravada de Birmingham. Esta é a terceira visita ao Brasil.

09 Fevereiro 2009

Sólida Montanha



Como uma sólida montanha
Pelo vento não é movida,
Assim, pelo insulto e pelo elogio
Não se afeta o homem culto - O Buddha


Um verso do Dhammapada que estudaremos hoje. A foto: um dos picos de Yen Tu, montanha sagrada do Vietnam, 2008, tirada do topo.

06 Fevereiro 2009

Falecimento do Ven. Sheng Yen

No último dia 3 de fevereiro, faleceu o Venerável Sheng Yen, grande mestre e fundador do Dharma Drum Mountain em Taiwan. Gostei como o Dr. Hayes o descreveu: "O Venerável Sheng Yen foi um professor renovador! Foi um mestre Chan que não sentia vergonha de ter um PhD e tinha uma inigualável habilidade em falar por meio de parágrafos completos, que mesmo alguém com pouco esperteza como eu podia facilmente entender. Aparentemente ele não sentia qualquer necessidade em se colocar com ares "chanistas/zenistas" falando com charadas, pontuado de grunhidos e gritos. Certa vez proferiu uma palestra de duas horas sobre o Chan (Zen) na Universidade de Toronto na qual nem por uma vez levantou o tema dos cachorros, com ou sem natureza de Buddha - um feito que se aproxima do miraculoso". Acho essas palavras excelentes para elogiar alguém.

"Possuo a alegria do Dharma; portanto, estou sempre feliz". Venerável Sheng Yen (1930 - 2009)

05 Fevereiro 2009

04 Fevereiro 2009

Um Centro Aqui e Agora

Por agora, vários já devem saber do lançamento de "O Centro Dentro de Nós" do Rev. Gyomay Kubose, um livro que recomendo enfaticamente. Num estilo singelo e direto, Kubose Sensei nos leva para uma vida diária preenchida de significado e alegria. É um livro para todas as pessoas, independente de linhagem, escola ou convicção religiosa.


“O Centro Dentro de Nós”

Autor: Rev. Gyomay Kubose
Tradução: Ricardo Sasaki
Capa: Elton Melo
ISBN: 978-85-87483-08-9
144 páginas – 14×21 cm
R$ 23,00

Sensei Gyomay Masao Kubose foi discípulo do Rev.Haya Akegarasu e fundou o Buddhist Temple of Chicago, sendo seu líder espiritual até sua morte, em 29 de março de 2000, com 94 anos de idade. Foi citado muitas vezes por sua obra no âmbito da comunidade buddhista e das relações comunitárias e em 1970, recebeu o World Buddhist Mission Cultural Award. Durante toda sua vida o Rev. Kubose enfatizou e ensinou a todos o Buddha-Dharma não-sectário.

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"Há um ditado no Buddhismo: “Quando você se senta, esteja sentado. Quando você está de pé, esteja de pé. Mas, acima de tudo, não vacile”. Isto significa que se deve estar totalmente concentrado naquilo em que se está fazendo. A ênfase é no fazer completo de uma atividade. É importante saber o que significa fazer algo completamente. Significa que uma vez você tenha terminado, você deve deixar isso para trás e seguir para a próxima atividade". - Sensei Gyomay Kubose

02 Fevereiro 2009

Bons conselhos

Em monges com a natureza de corvos, mencionei sobre a avidez que também nos 'monges' está presente. Claro, são seres humanos como todos. O problema é quando essa avidez além do mais se alia à arrogância, e então começam a se pensar como seres especiais, acima de qualquer repreensão. Certa vez, os monges de um mosteiro começaram a plantar árvores frutíferas para seu próprio sustento. Isso é contrário às regras monásticas do Vinaya. A instrução que o Buddha deu para ser veiculado por seus dois discípulos principais foi a seguinte: “Digam a tais bhikkhus para não destruir a fé e a generosidade dos discípulos laicos por meio de sua má conduta; e se qualquer um desobedecer retirem-no do mosteiro. Não hesitem em fazer como eu digo, pois somente os tolos não gostam de receber bons conselhos e serem impedidos do mal”.

A frase que chama a atenção aqui é “somente os tolos não gostam de receber bons conselhos e serem impedidos do mal”. Sempre uma boa lembrança para todos, monges e não-monges!