09 outubro 2006

Imagens positivas

Ontem tive uma boa conversa com o prof. Alfred Bloom, um dos mais importantes representantes do Buddhismo Shin (Terra Pura) no mundo. E talvez alguns dos leitores das 'folhas' possam se interessar por um ou outro ponto discutido.

Uma das histórias interessantes foi a de um encontro, certa vez, com alguns monges theravada do Sri Lanka, os quais lhe contaram um acontecimento interessante. Costumavam dar ensinamentos profundos em seu templo, mostrando como o nirvana é 'nada' ou 'vazio'. Mas, com o tempo, perceberam que o público que os ouvia interpretavam que 'nirvana é vazio' como uma licensa para não fazer nada, ou seja, se é vazio, então não há nada para se fazer ou se esforçar. Foi aí que começaram a se utilizar de imagens positivas para o nirvana, como aquelas de uma cidade onde reina a felicidade.

Esse tipo de constatação é um fundamento do Buddhismo Shin, que habilidosamente se utiliza de imagens 'positivas' como as da Terra Pura, dos pássaros que lá cantam o Dharma e da ação misericordiosa de Amida.

Parece-me que esse processo de adaptação, que o Shin exemplifica desde sua fundação por Shinran no século XIII, é um processo contínuo e que se estende até os dias de hoje. É um processo, na realidade, essencial na transplantação efetiva do Buddhismo para solo brasileiro. Cada vez menos no Brasil o dharma se mantém como um patrimônio exclusivo de orientais (japoneses, chineses e coreanos em particular) para se tornar 'dos brasileiros'. E cada vez mais o Buddhismo sob suas diversas formas é aceito na sociedade. Para isso ele percorreu um longo caminho, em todos os países ocidentais, um caminho adaptativo onde não faltou discriminações e incompreensões. Tanto nos EUA, cuja Suprema Corte decretou em 1922 que somente seriam considerados cidadãos americanos aqueles que fossem "americanos brancos livres e pessoas de ascedência africana", promulgando em 1924 o Ato de Exclusão Oriental, quanto no Brasil, onde japoneses e seus descendentes foram perseguidos e policiados na década que se seguiu à grande guerra, comunidade étnicas buddhistas se viram discriminadas, ou frequentemente mal-interpretadas.

Os tempos são outros, e agora o dharma encontra novos obstáculos para seu enraizamento em solo pátrio. Que obstáculos e que reflexões que se poderia tirar a partir disso?

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