12 janeiro 2006

Buddha Gordo

Não, o Buddha não era gordo. Não, esfregar a barriga do Buddha gordo não traz sorte. Mas então por que o Buddha aparece freqüentemente como um sujeito gordo e sorridente? Quantas vezes já ouvimos e respondemos essa pergunta? Difícil dizer, mas certamente é uma das mais freqüentes.

O Buddha era um andarilho. Quando ainda jovem, membro da casta guerreira, praticava artes marciais e esportes. Mais tarde, quando abandonou o palácio, dedicou-se por anos a fio a práticas ascéticas, as quais, certamente, não incluiam gastronômicas refeições. Após a iluminação e até morrer, o Buddha andou incessantemente de vila em vila, cidade em cidade, montanha em montanha. A cada ano, durante nove meses, ele e seus discípulos andavam. Durante os três meses da estação das chuvas eles permaneciam num mesmo lugar, mas, mesmo assim, tinham que andar todos os dias para buscar seu alimento nos vilarejos.

Então por que alguém teria a idéia de representá-lo gordo?? O que ocorre na realidade é que o famoso Buddha gordo *não* é uma representação do Buddha, por mais que as revistas e a mídia superficial insistam em representá-lo assim. A origem dos "Buddhas Gordos" é obscura e há várias explicações. Na verdade, parece ter havido vários personagens gordos.

As primeiras representações chinesas de tal personagem apareceram provavelmente na dinastia Sung (960-1275). Um primeiro tipo é aquele representado sentado sobre um saco (contendo tesouros). Em sua mão esquerda ele segura uma peça de ouro na forma de um barco ou, por vezes, um mala (rosário). Na mão direita por vezes segura um leque. Nesse caso, ele representa Mi Fo, talvez associado ao rei-guardião da prosperidade, Jambhuvala, o qual preside o setor norte do universo.

Uma outra figura parece ter tido como inspiração Chang Dingzi, um monge buddhista que viveu na China do décimo século. Ele sempre carregava um saco em suas costas e por sua sabedoria e fama de feitos miraculosos passou a ser considerado uma manifestação de Maitreya, o Buddha do futuro. Maitreya é tido como o bodhisattva da compaixão ilimitada. Na China havia uma expressão idiomática para alguém muito paciente e tolerante, "aquele de estômago grande". Talvez essa expressão acabou sendo tomada literalmente, surgindo o sujeito gordo carregando um saco nas costas. Enquanto tal, ele é assim uma representação de Maitreya (Mileh Fo em chinês ou Miroku Bosatsu em japonês).

Em uma outra representação encontramos nosso obeso personagem com as mãos para o alto, como que segurando os céus para não cair. Este é Hotei, o deus chinês da prosperidade e da riqueza. Uma grande barriga sempre foi associada na Ásia à prosperidade. Alguns o associam à divindade indiana Indra, senhor dos céus. Hotei aparece sempre rindo, daí muitos o chamarem de "Buddha Sorridente". Hotei é uma das sete divindades japonesas da sorte.

Há ainda uma outra representação, quando ele aparece rindo e cercado de crianças ou animais. Esse é o bodhisattva Kshitagarbha (Di Zang Wang Pu Sa em chinês e Jizo Bosatsu em japonês), protetor das crianças e para o qual muitos rezam quando perdem seus filhos.

Vindo da tradição thailandesa, temos ainda uma outra estória. Nosso personagem era um discípulo do Buddha, jovem e atraente. As mulheres não o deixavam em paz, então ele desejou se tornar muito gordo para que elas o deixassem em paz e ele pudesse meditar tranquilo. Uma outra versão o associa a Anathapindika, o rico comerciante que tanto apoiou o Buddha e a Sangha de monges. Como prosperidade e uma grande barriga também estão associadas na cultura indiana, o "Buddha Gordo" apareceu.

Enfim, todas essas versões se mesclam e se confundem de forma que nem mesmo os povos asiáticos sabem mesmo do que se trata. O que se poderia dizer dos ocidentais? E sempre há a possibilidade de alguma influência escandinava desconhecida e o
"Buddha Gordo" não ser outro que o Papai Noel disfarçado (afinal quem aguentaria passar a vida inteira nas terras geladas e com aquele casaco pesado?); ou, pelo contrário, que o Papai Noel seja na verdade Maitreya ou o "Buddha Gordo", uma forma de trazer iluminação e felicidade também aos povos ocidentais. Afinal de contas, ambos são gordos, prósperos, sempre aparecem sorrindo, gostam de crianças, distribuem presentes e carregam um saco nas costas. Não é de se pensar?...

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