08 maio 2013

Não se surpreenda

Surpresa surpresa!
Aqui vai mais uma dica de Godwin Samararatne sobre como lidar com os erros nossos e dos outros. Se acontecerem, não se surpreenda e pense assim:

"Às vezes digo que se você cometer um erro você deveria se lembrar: “Não se surpreenda, você ainda não está iluminado”’. E quando você vê alguém cometer um erro: “Não se surpreenda, eles ainda não estão iluminados”. Essa é uma maneira muito simples e direta de aceitarmos a nós mesmos, nossa humanidade, nossa imperfeição e aceitarmos a imperfeição e humanidade dos outros.

Normalmente reagimos porque somos surpreendidos. Mais uma vez é humano que nos surpreendamos, porque todos temos um modelo e expectativas sobre como as coisas deveriam ser. Quando acontece alguma coisa que vai contra esse modelo e contra nossas expectativas, ficamos surpresos e reagimos a isso. É muito humano ter ideias e modelos, mas pelo menos quando você está reagindo, você pode refletir sobre isso. Pergunte-se que modelo é esse, qual é a expectativa que estava tendo.

Porém, não havendo a ideia, não haverá reação. Porque se você tem este ideal da não-reação, então, quando reage, você está reagindo a isso. Quando reagir, faça amizade com isso e tente refletir sobre isso de uma maneira muito gentil e amigável, caso contrário você estará atribuindo a si mesmo pontos negativos. Isto é a coisa mais importante. Todos nós cometemos erros. Quando cometer erros, tente fazer um esforço para não se dar um ponto negativo. Apesar de não se dar um ponto negativo, isso não significa que você apenas permite tais coisas acontecerem; você não se entrega a elas".

Nosso agradecimento a Marílis T. por atender ao convite para traduzi-lo.

05 maio 2013

Como você lida com seus erros?

Como lidamos com nossos erros? E com os erros dos outros? Haveria uma forma melhor de lidar com eles, uma forma que não nos leve para baixo, uma forma que nos eleve na compreensão? Ao invés de ficarmos presos em nossos condicionamentos destrutivos e autodestrutivos podemos parar e nos fazer perguntas que nos levem à compreensão. Confiram a dica do professor de dharma Godwin Samararatne sobre isso:

Mais e menos

"Você pode ter uma conversa bastante amigável consigo mesmo. Você pode se perguntar de maneira bastante amigável: “O que foi que eu fiz? Por que isso aconteceu comigo?”; ao invés de: “Eu não deveria ter feito isso”. O último pensamento é um grande “menos”. Tente entender o porquê de você ter se comportado de tal maneira. Desta maneira, você poderá realmente aprender com seus erros, sem se dar um grande “menos”. É como se você se desse uma grande “mais”, porque, a partir do momento em que você se torna mais consciente de seus erros, você pode aprender com eles. Você pode, até mesmo, se alegrar com eles. Desta maneira, você entende a importância da bondade amorosa. Da mesma forma que você se relaciona com seus erros, você pode se relacionar com os erros das outras pessoas.

Contudo, a nossa força autodestrutiva pode ser tão forte que pode tornar difícil sermos amigos de nós mesmos. Os sentimentos autodestrutivos podem, de verdade, nos sobrepujar. É por isso que a consciência é tão importante na prática meditativa. Quando você percebe que possui essa tendência autodestrutiva, e que esse aspecto surge juntamente com os “menos”, você pode percebê-lo imediatamente. Você percebe que é uma tendência muito forte, um condicionamento muito forte, um hábito. É importante perceber que é apenas um hábito, é apenas um condicionamento. Não está representando algo real. Quando você o vê como um hábito, você não lhe dará muito poder e energia, como faria no caso de algo real.

Um exercício bastante interessante é se perguntar diariamente: “Quantos ‘menos’ eu me dei hoje?”. Então, tente ver também as diferenças entre os diversos “menos” que você está se dando: grandes “menos” ou pequenos “menos”. Por fim, ao invés de se sentir mal, você pode rir disso. Assim haverá leveza e, até mesmo, alegria. Na prática da meditação acho que é muito importante que trabalhemos com nós mesmos de uma forma leve e proveniente do coração (mesmo que seja com as nossas deficiências), ao invés de uma forma pesada, nos punindo, ou de uma forma demasiadamente séria e intensa
".

Nosso agradecimento ao Oscar S. por atender ao convite para traduzir este trecho.

03 maio 2013

Radicalismo e Superficialismo Religioso

Nas últimas décadas temos visto o crescimento assustador do radicalismo religioso por todos os cantos do planeta. Grupos cristãos se envolvem cada vez mais com a política nos países ocidentais formando bancadas cada vez mais majoritárias com o poder de proposições e vetos baseados na “ditadura da maioria”. Ao mesmo tempo grupos cristãos continuam o avanço missionário agressivo no oriente, não muito diferente daquele já iniciado nos tempos coloniais. Radicais muçulmanos são notícias diárias por sua violência e imposição forçada de costumes culturais e regionais de séculos passados. Nem mesmo o Buddhismo, comumente considerado uma religião das mais pacíficas escapa de ter seus grupos radicais, fazendo uso de número e apoio político para a agressão e intimidação de minorias religiosas e étnicas em seus países de origem. Tudo isso é conhecido e amplamente discutido.

Um lado da mesma questão que é, porém, raramente discutido é a contrapartida da radicalização religiosa encenada por todos aqueles que não são “radicais”. O que acontece com estes que criticam os radicais religiosos? Suas características poderiam nos ajudar a entender a própria radicalização em nossos tempos? Do outro lado dos fundamentalistas religiosos encontram-se basicamente três grupos: 1. Os indiferentes; 2. Os ateus e agnósticos; 3. Os espiritualistas.

Os indiferentes

Essa classe de pessoas, entediada pelas discussões filosóficas e religiosas, se constitui na maioria da população, uma maioria que não se interessa em pensar, se engajar ou se comprometer com absolutamente nada além da busca autoindulgente de seus próprios prazeres e sonolência mental. Por sua indiferença e falta de compromisso ela mesma se torna um solo fértil para o surgimento do radicalismo naqueles que se tornam revoltados pela mesmice do dia a dia. O radical religioso em potencial anseia por um sentido para sua vida, uma saída da passividade e falta de idealismo que percebe ao seu redor.

Os ateus e agnósticos

Os ateus e agnósticos, cujo crescimento se deve frequentemente ao próprio obscurantismo das instituições religiosas, são indivíduos engajados que resolveram reagir não apenas à negligência dos indiferentes, mas principalmente ao avanço do literalismo religioso. Diante dos absurdos propostos pelos radicais religiosos e de uma longa história de guerras, cruzadas, ocultação, contradição, privilégios, etc. por parte das instituições religiosas, este grupo, o mais comumente, se alia à perspectiva científica para “provar” a falsidade de todas as religiões, e não é incomum que a forma como alguns de seus membros se apegam à ciência apresente traços muito parecidos com os do grupo de radicais religiosos que eles próprios querem combater. Como a perspectiva científica é baseada na experimentação ela é constantemente mutável, o que faz com que aqueles que escolham utilizar a ciência moderna como sua base argumentativa tenham que mudar seus argumentos a cada geração de cientistas. Mas talvez o ponto cego mais forte no posicionamento ateu/agnóstico seja que ao se radicalizar em seu ataque às religiões ele perceba nelas apenas o que os próprios radicais religiosos também percebam, ou seja, a interpretação literalista e superficial das doutrinas religiosas. Ao invés de tentar entender a fundo o conteúdo metafórico, imagético, simbólico, psicológico e anagógico das doutrinas religiosas, muitos jogam o bebê junto com a água suja do banho.

Os espiritualistas

E, então, chegamos aos espiritualistas. Esses não são indiferentes ao fenômeno religioso como o são os componentes de nosso primeiro grupo, ainda que muitos compartilhem com eles o desinteresse por qualquer compromisso formal com um caminho na religião. Esses são os que se consideram ‘espiritualistas’, que se desiludiram com suas experiências passadas nas religiões institucionais, mas que ainda nutrem um anseio por algo maior que a mesmice cotidiana de seus contemporâneos. Os espiritualistas não são também como os ateus e agnósticos em sua cruzada por desbancar o conjunto das religiões, ainda que compartilhem com eles a valorização da “experiência”. Enquanto que alguns espiritualistas possam ser muito engajados nas práticas e crenças que desposaram um traço é frequente encontrar em comum com os espiritualistas não engajados, aqueles de livros de cabeceira. Esse traço é certa indiferença em se aprofundar realmente. Eles fazem vários cursos, leem vários livros, praticam muitas ‘técnicas’ variadas, mas pouco se aprofundam em qualquer uma dessas coisas individualmente. A excitação vem da própria multiplicação incessante de novas experiências, cursos e pessoas encontradas, o que dá a sensação de que estão se aprofundando em seu caminho.

Há certa falácia aqui, a ilusão de que é possível uma real compreensão (base para o aprofundamento em qualquer coisa) a partir da coleta de experiências, como se o acúmulo de fatos particulares pudesse fazer surgir por si mesmos uma compreensão do universal. As experiências aqui são sensações, sentimentos, prazeres táteis que as técnicas e vivências em que se engajam lhes trazem. A ilusão está em crer que tais coisas são fontes de conhecimento real, crer que vivências surgidas de meios materiais ou psíquicos tenham um significado universal e verdadeiro embutido em si mesmas. Tais espiritualistas a partir dessa crença tornam-se buscadores de sensações, almejam por ‘sentir’ energias, contatar uma brisa etérea subjacente em suas próprias imaginações.

Os radicais religiosos, indiferentes, ateus e espiritualistas não são tão diferentes assim. São todos eles facetas de um mundo onde princípios foram perdidos. Uns buscam o sentido na interpretação literalista e, portanto, simplória das doutrinas religiosas. Outros se interessam pela mesmice cotidiana, mantendo a mente simplória em qualquer ocasião. Outros simplificam as doutrinas religiosas a fim de poderem criticá-las com os dados mutantes daquilo que entendem por verdade científica. E finalmente os últimos simplificam e aplainam todos os cumes e vales das doutrinas religiosas mais profundas a fim de se adequarem à sua própria noção de espiritualidade, uma versão simplificada do caminho espiritual que idealiza o valor de experiências pessoais e emoções particulares, e que assim se conforma à sua própria ausência de estamina espiritual. A existência de cada um sustenta o aparecimento e fortalecimento do outro, como diferentes tipos de yins e yangs que apesar de diferentes mostram opostos se tornando a base para o surgimento de seus extremos companheiros.

01 maio 2013

Bondade amorosa nos relacionamentos

A amorosidade ou bondade amorosa pode ser usada tanto para curar as feridas criadas na vida diária, quanto no fazer amizade com o que é desagradável. Confiram as palavras de Godwin Samararatne: "Sempre enfatizo bastante a meditação da bondade amorosa. Também tento usar a meditação da bondade amorosa de diferentes maneiras. Uma é usar essa meditação para curar as feridas que são criadas na vida diária onde se está fadado a ter dificuldades nos relacionamentos. O que é importante é descobrir um instrumento para saná-las. Então a meditação da bondade amorosa, nesse ponto, pode ser algo muito, muito útil.

Outro aspecto da meditação da bondade amorosa é no aprender a fazer amigos com o que quer que aconteça, especialmente se for desagradável. Essa perspectiva pode ser usada no relacionar-se com pessoas de quem você não goste e em relacionar-se com emoções das quais você não goste. Quando aquela emoção surge, apenas faça um esforço para fazer amizade com ela, dar as boas-vindas a ela. Haverá uma diferença. Quando se pratica a meditação da bondade amorosa os relacionamentos são fadados a melhorar. Comunicar-se pela bondade amorosa com os outros é um belo modo de relacionar-se consigo e de relacionar-se com os outros
".

Nosso agradecimento ao Jorge F. por atender ao convite para traduzir este trecho.

30 abril 2013

E se hoje ficássemos gratos por tudo?

Sempre bom lembrar no decorrer do dia. Palavras sábias de Godwin Samararatne: "Um aspecto da bondade amorosa que enfatizo é a importância de se sentir grato. Penso que temos esta qualidade espiritual muito importante da gratidão. Quando eu estava em Bodhgaya, o lugar onde se diz que o Buddha se iluminou, fiquei refletindo sobre o que se sabe que o Buddha fez depois de ter atingido a iluminação. Uma das coisas registradas é que ele ficou contemplando por sete longos dias a árvore Bodhi que lhe dera abrigo. Sem fechar os olhos para dormir, ele ficou olhando para a árvore mostrando sua gratidão. Muitas vezes temos a sorte de termos por que agradecer. Temos a agradecer os olhos que temos para ver, os ouvidos para ouvir e a comida para comer.

Quando isso foi mencionado no Nilambe - o centro de meditação onde moro - houve uma monja da Tailândia que tocou num ponto muito interessante. Ela disse que não só devemos nos sentir gratos pelas coisas positivas, mas também devemos nos sentir gratos pelos desafios, pelas oportunidades na vida para trabalharmos com nós mesmos. Assim, por exemplo, quando ficamos com raiva, podemos nos sentir gratos por ter a oportunidade de estudar a raiva. Às vezes quando temos dor física começamos a odiar a dor e o corpo, mas é possível, ao invés disso, sentirmo-nos gratos. Podemos torná-la um objeto de nossa meditação. Quero dizer que nós aprendemos a ser gratos pelas coisas positivas, as bênçãos que temos, mas nós também podemos ser gratos pelas situações difíceis que enfrentamos, porque elas podem ser experiências de aprendizagem muito valiosas
".

Nosso agradecimento a Marílis T. por atender ao convite para traduzi-lo.

24 abril 2013

O Positivo em Nós Mesmos


Godwin Samararatne diz o seguinte sobre a meditação de metta (amorosidade/bondade amorosa): "A meditação da ‘bondade amorosa’ também pode nos ajudar a aprendermos a ver o lado positivo em nós mesmos. Para isso, precisamos trazer à tona conscientemente e refletir sobre a nossa própria bondade e as qualidades positivas que temos. Quando vemos os nossos pontos positivos, desenvolvemos a autoestima, através da qual nós vemos mais e mais nossa própria bondade e as coisas boas que fazemos. Acho que é muito importante desenvolvermos a autoestima e autoconfiança, porque com o aspecto autodestrutivo em nós perdemos essa capacidade de apreciarmos a nós mesmos.

Vendo o bom em nós mesmos podemos criar muita alegria e felicidade. Sinto que isso é muito importante no caminho espiritual. Este é o primeiro passo da ‘bondade amorosa’, usar a meditação da bondade amorosa a fim de gerar bastante alegria e felicidade. E, é claro, quando você está feliz, isso pode ser contagioso, pode afetar outras pessoas. Mas, o primeiro passo é ter essa alegria, felicidade e leveza. O próximo passo é ver os seus sentimentos como impermanentes, porque, se você segurá-los, eles podem causar sofrimento. É importante perceber que eles não nos pertencem. Em termos budhistas, você vê anicca, impermanência, e anatta, ausência de um ‘eu’ separado
".

Nosso agradecimento a Marílis T. por atender ao convite para traduzi-lo.

23 abril 2013

Feridas de Infância

Feridas na infância
Godwin Samararatne tem um conselho aqui para aqueles que passaram por sofrimentos e abusos na infância:

"Algumas pessoas no Ocidente são muito feridas em sua juventude. Elas não tiveram como desenvolver a sua autoestima. Sentem frieza e indiferença no seu íntimo. Estas feridas podem ser tão profundas que é difícil curar-se mesmo pela bondade amorosa. É uma espécie de círculo vicioso em que estão. A pergunta é: como elas podem nutrir uma tão pequena semente de autoestima e amor-próprio?

Quando comecei a conviver mais com Ocidentais, aprendi sobre essas feridas muito sérias e profundas que lhes foram impingidas na infância. Normalmente tais pessoas carregam muita raiva e ressentimento contra seus pais. No começo me iludi ao dizer: “Perdoe seus pais, tenha bondade amorosa”. Vi que isto não funcionou porque elas vinham e me diziam: “Como posso ter bondade amorosa? Tenho vontade de bater em minha mãe, tenho vontade de bater em meu pai”. Às vezes elas tinham tanta raiva que eu senti medo. Agora o que digo é: “Por favor, traga aquela raiva. Se você quiser, você pode verbalizar tal raiva, falar aos seus pais de sua imaginação, sinceramente experimentar a raiva”. Penso que, quando crianças, elas não tiveram uma oportunidade de realmente expressar a raiva que sentiram aos seus pais. Elas estão agarradas à raiva, e às vezes, é bom por para fora".

Nosso agradecimento ao Jorge F. por atender ao convite para traduzi-lo.

20 abril 2013

Para cada sentido e para cada momento


Outra palavra importante em nossa tradição e que tem a ver com conhecimento é vipassanā. Passanā significa ver. Ver é um tipo de conhecimento. Na verdade, podemos falar que cada um dos cinco sentidos nos confere um tipo diferente de conhecimento. De forma sábia podemos extrair conhecimento de cada um dos sentidos. Pessoas diferentes até mesmo têm diferentes proporções no modo como extraem conhecimentos dos vários sentidos. Alguns são mais visuais, outros mais auditivos, outros ainda mais corporais. Quando uma cultura provê um excesso de informação visual, ou seja, de conhecimentos que vêm através do olho, podemos perguntar quanto da realidade total que estamos perdendo? Quantas coisas que podem vir da via olfativa ou gustativa e que você simplesmente ignora ou toma como sendo um conhecimento comum? No entanto, cheiros e aromas têm uma via direta de conhecimento. Por exemplo, o cheiro é o único dos sentidos que vai direto para o hipotálamo, não passando por outras áreas do córtex. Ele atinge áreas cerebrais que guardam coisas bem mais instintivas e profundas que não passam por todo o processo de elaboração racional e isso vem através dos vários cheiros, só que você não percebe isso. Você perde esse tipo de experiência. E quantas coisas podem ser aprendidas pelo conhecimento tátil?

Cada um dos sentidos traz um conhecimento diferente e você pode aprender com eles. Então quando usamos a palavra passanā como verbo comum, ela significa ver e o conhecimento que vem do ver. Quando colocamos o prefixo vi na frente de passanā, temos algo um pouco diferente. Vi significa ‘de uma forma peculiar’, ‘de uma forma diferente’. Vipassanā significa ‘ver as coisas de uma forma diferente’. Aqui já não é mais a visão que vem através dos olhos. Qual é esse tipo de visão que você pode ter? Vipassanā é o como podemos desenvolver um modo diferente de ver as coisas, e é por isso que muitas vezes essa palavra é identificada com a própria prática da meditação buddhista.

Enquanto que temos várias formas de conhecer provenientes de cada um dos sentidos, há também uma forma apropriada de conhecimento a cada momento. A realidade nos oferece vários tipos de vivências. Qual é a forma que devo utilizar mais conveniente ou apropriada segundo as circunstâncias? No caso dos sentidos corporais, talvez diante de um objeto gustativo, o conhecimento visual tenha sua importância, mas não lhe dá a experiência mais completa. A cada momento devemos nos perguntar sobre qual é a forma apropriada de conhecer. Na vida temos uma série de experiências que vem através de outras pessoas, de situações de vida, mas somos meio cabeças duras. Diante das experiências pensamos que é ‘isto’ que está acontecendo, e é ‘isto’ o que devo fazer. Mas nem sempre isso é verdade. Nem sempre é mesmo necessário fazer algo. Como somos uma sociedade muito voltada à ação, parece-nos que a cada coisa que acontece, temos que ter uma reação a seu respeito. Isso cria um excesso de angústia e preocupação muito grande. E quanto mais agitada é a sua vida, quanto mais contatos você tem, quanto mais experiências, quanto mais estímulos, mais angustiado você fica. Se a cada experiência você pensa que deve dar uma resposta, mais angustiado você vai ficando porque você acha que sempre tem que agir. Mas em várias coisas na vida não é preciso agir, mas sim, contemplar. Outras experiências são para serem refletidas, outras para não se fazer nada, outras para serem sentidas, sem necessidade de tomar alguma providência a respeito. A cada momento de sua vida você tem experiências que certamente são interessantes, que certamente podem lhe trazer algum tipo de conhecimento e, quem sabe, conhecimento ligado com a sabedoria, mas ela só pode lhes dar isso se souber qual é o instrumento apropriado para lidar com aquela experiência.

19 abril 2013

in memoriam: Jacob Perl

Mestre Zen Wu Bong
Com tristeza recebemos a notícia de que Jacob Perl, Mestre Zen Wu Bong, faleceu no último dia 17 de abril, aos 62 anos, vítima de um ataque cardíaco. Wu Bong foi Professor Chefe da Kwan Um School of Zen na Europa, tendo recebido inka e transmissão do Dharma do Mestre Zen Seung Sahn em 1993. Ele foi um dos primeiros alunos americanos de Seung Sahn, tendo estudado previamente com Shunryu Suzuki e Tarthang Tulku.

Nascido na Polônia, ele começou a ensinar na Europa em 1984 e desde 2010 dividia seu tempo entre a prática monástica e a direção do centro europeu. Ele ajudou Seung Sahn a fundar o primeiro Kwan Um Zen Center da Polônia, e fazia viagens frequentes de ensino para os EUA, vários países da Europa (foi o fundador do Paris Zen Center) e África (em visita a Heila Poep Sa Nim e professor de Dharma Rodney Downey, que os amigos do Nalanda conhecem bem por suas visitas ao Brasil). Ele era faixa preta 4o. dan em Shim Gum Do (espada coreana) e graduado pela Brown University de Providence, Rhode Island.

vidas atrás
Jacob foi o primeiro professor Zen que me acolheu em solo americano (26 anos atrás!). Sorriso alegre, sério na prática e sempre disposto a ajudar. Eu fazia muitas perguntas nas entrevistas! Muito do que eu relato em meu livro Céu Azul Verde Mar vem junto com memórias dos tempos passados no Providence Zen Center onde ele residia na época. Ele é um dos mencionados na dedicatória do livro. Todas as sextas-feiras à noite havia um intervalo no forte treinamento diário que começava todos os dias às 4h30 da manhã com 108 prostrações, cânticos e meditação. Era um período para relaxar com os amigos de treinamento, comer pizza na cidade, brincar um pouco. Ao mestre Wu Bong, minhas reverências profundas, lembranças dos bons momentos e Namu Amita Bul.

Um estímulo para recitar em pali

Para quem tem dificuldade em decorar cânticos e recitações, eis um estímulo de um garoto de três anos de idade:

 

15 abril 2013

Formas de Conhecer

Entenda!
Em nossa tradição pāli uma medida de como é importante o conhecimento vivencial é mostrada pela própria quantidade de palavras em pāli que se relacionam com conhecimento. Por exemplo, temos viññāṇa que é traduzido como consciência. É um dos cinco componentes básicos da mente. É a capacidade que a mente tem de reconhecer algo tão logo toque naquilo. A mente se torna consciente. Somos seres conscientes, que é uma característica dos seres vivos e do ser humano, diferentemente da pedra que talvez não tenha aquele tipo de consciência da experiência, do espaço e do tempo.

Um segundo componente da experiência mental é saññā que também tem o mesmo sentido de conhecimento. Enquanto que viññāṇa é esse estar consciente, saññā tem o sentido de perceber de uma forma mais categorizante, de uma forma que você sabe o que é isso ou o que é aquilo. Você pode reconhecer, por exemplo, quais as cores da parede ou da sua camisa. É um tipo de conhecimento também limitado, mas é um conhecimento que classifica as coisas.

Um terceiro componente dos estados mentais é vedanā. Juntamente com os dois primeiros, mais rūpa, a forma corporal, e saṅkhāra, as atividades volitivas, formam aquilo que é chamado de os Cinco Agregados. Vedanā também significa conhecimento. A raiz ‘ved’ significa conhecer, tanto que as escrituras hindus chamam-se Vedas. Vedanā é um tipo de conhecimento que vem por meio de como sentimos as coisas. A palavra mostra como a própria psicologia buddhista classifica os vários componentes do ser humano sob o ponto de vista do conhecer. Ela propõe o ser humano como um ser que se torna consciente, que conhece ao classificar coisas e ideias, que conhece quando sente as coisas.

Quando tais conhecimentos são sábios e profundos, de acordo com a realidade, então, ele é chamado de paññā, que faz parte da mesma família linguística de viññāṇa e saññā. Paññā é sabedoria, um tipo de conhecimento que é profundo, que não fica na superfície. Enquanto alguns conhecimentos são superficiais, outros realmente falam sobre alguma característica universal da realidade. É isso que buscamos. É por isso que paññā, ou em sânscrito prajnā, é tão importante. A sabedoria é um tipo de conhecimento que alimenta. Quando há sabedoria, existe uma satisfação que é semelhante ou análoga àquela satisfação que vem quando diante de um prato gostoso de alimento. Ela satisfaz o coração. E se esse é um conhecimento que não apenas é sábio, mas também é transcendente, atingindo o mais profundo da realidade, então ele recebe outro nome que é aññā. Aññā é o conhecimento dos arahants e dos Buddhas. É aquele conhecimento último a respeito da realidade das coisas.